Por Crispian Balmer
ROMA, 30 Jul (Reuters) - O diretor do Festival de Cinema de Veneza, Alberto Barbera, defendeu nesta quinta-feira a programação deste ano, afirmando que a ausência dos grandes estúdios de Hollywood e a escassez de diretoras refletem problemas mais amplos do setor, e não suas próprias escolhas.
Os comentários vêm à tona uma semana após Veneza divulgar uma programação praticamente sem filmes norte-americanos produzidos por grandes estúdios e com apenas uma diretora entre os 20 títulos que disputam o prêmio principal, o Leão de Ouro, o que gerou preocupações quanto à qualidade da programação.
Em artigo publicado no jornal italiano La Stampa, Barbera afirmou que seria “difícil, se não errado”, culpar Veneza pela ausência dos estúdios norte-americanos, argumentando que Hollywood passa por um período de turbulência marcado pelo aumento dos custos, queda na bilheteria e pela crescente concorrência das plataformas de streaming.
“O único grande filme que poderíamos realisticamente ter esperado era ‘Digger’, que a Warner Bros decidiu lançar apostando no fator surpresa, contornando todos os festivais de outono”, escreveu ele, referindo-se a um filme dirigido por Alejandro G. Iñárritu e estrelado por Tom Cruise.
“Simplesmente não havia outros títulos, ou eles não estavam prontos a tempo para as nossas datas”, disse Barbera.
MULHERES
As edições recentes dos festivais de Veneza e de Cannes haviam se beneficiado de uma forte presença de Hollywood, com estúdios e plataformas de streaming utilizando os principais festivais da Europa para lançar campanhas de prêmios e gerar publicidade para lançamentos de prestígio.
Neste ano, no entanto, os dois eventos tiveram uma presença significativamente menor dos estúdios.
Barbera, de 76 anos, que está à frente do festival de cinema mais antigo do mundo desde 2012 -- e já o dirigiu de 1998 a 2001 --, disse que é muito cedo para concluir que Hollywood tenha abandonado completamente o circuito de festivais.
“Eu seria cauteloso ao tirar conclusões precipitadas sobre a decisão dos norte-americanos de se manterem afastados dos festivais”, escreveu.
“No ano que vem, talvez possamos entender melhor quais serão as novas estratégias de promoção de filmes, se é que haverá alguma.”
Barbera também defendeu Veneza contra as críticas sobre a falta de diretoras na competição, afirmando que a indústria está impedindo a paridade de gênero.
“É fácil atribuir a responsabilidade aos festivais quando o problema está em um nível mais alto”, argumentou, no artigo, citando barreiras que impedem as mulheres de ingressarem na profissão, dificuldades de financiamento e o acesso desigual aos orçamentos de produção.
A única mulher a garantir uma cobiçada vaga na competição principal foi a diretora dinamarquesa May el-Toukhy, que estreará seu drama “Woman Unknown”.
O festival deste ano ocorre de 2 a 12 de setembro. Entre os títulos mais comentados estão “Cavalo Selvagem Nove”, de Martin McDonagh e estrelado por John Malkovich; “Ink”, de Danny Boyle, sobre os primeiros dias do magnata da mídia Rupert Murdoch; e “Possible Love”, o primeiro filme em oito anos do cineasta coreano Lee Chang-dong.
(Reportagem de Crispian Balmer)



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