Por Daniel Flynn e Olena Harmash
KIEV, 25 Mar (Reuters) - Os Estados Unidos estão condicionando sua oferta de garantias de segurança para um acordo de paz na Ucrânia à cessão por Kiev de toda a região oriental do país, o Donbas, para a Rússia, disse o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, à Reuters em uma entrevista.
Com os EUA concentrados em seu próprio conflito com o Irã, o presidente norte-americano, Donald Trump, está pressionando a Ucrânia em um esforço para pôr um fim rápido à guerra de quatro anos desencadeada pela invasão russa de 2022, disse Zelenskiy.
"O Oriente Médio definitivamente tem um impacto sobre o presidente Trump, e acho que sobre seus próximos passos. O presidente Trump, infelizmente, em minha opinião, ainda escolhe uma estratégia de colocar mais pressão sobre o lado ucraniano", disse ele à Reuters.
Os EUA, a Rússia e a Ucrânia realizaram três rodadas de conversações trilaterais de alto nível em Abu Dhabi e Genebra este ano, em uma tentativa de negociar o fim do conflito mais sangrento da Europa desde a Segunda Guerra Mundial, que devastou áreas da Ucrânia e matou centenas de milhares de pessoas.
O líder ucraniano afirmou repetidamente que são necessárias garantias robustas de segurança dos parceiros internacionais para assegurar que a Rússia não reinicie as hostilidades no futuro, depois que qualquer acordo de paz for firmado.
Segundo Zelenskiy, duas questões vitais ainda não foram resolvidas com relação às garantias de segurança: Quem ajudaria a financiar as compras de armas da Ucrânia para sustentar seu poder de dissuasão militar e como exatamente seus aliados responderiam diante de qualquer agressão russa futura?
"Os norte-americanos estão preparados para finalizar essas garantias em alto nível assim que a Ucrânia estiver pronta para se retirar de Donbas", disse o líder de 48 anos, que acrescentou que entendia as "sutilezas" da posição norte-americana, embora não tivesse participado diretamente das conversações trilaterais.
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, insiste que o controle de todo o Donbas é um elemento essencial de seus objetivos de guerra, que Moscou alcançaria no campo de batalha se não conseguisse fazê-lo na mesa de negociações.
Mas o ritmo do avanço militar da Rússia tem sido lento nos últimos dois anos. Os analistas militares dizem que pode levar muito tempo e uma quantidade significativa de mão de obra para conquistar todo o Donbas, que inclui o chamado Cinturão de Fortalezas de cidades fortemente fortificadas pelos militares ucranianos.
Zelenskiy alertou que uma retirada comprometeria a segurança da Ucrânia e, por extensão, da Europa, ao entregar as fortes posições defensivas da região à Rússia.
"Gostaria muito que o lado norte-americano entendesse que a parte oriental de nosso país faz parte de nossas garantias de segurança", disse ele.
A Casa Branca não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.
Zelenskiy havia dito em janeiro que um documento de garantias de segurança entre a Ucrânia e os EUA estava "100% pronto" e esperando para ser assinado. Na terça-feira, após as conversas de fim de semana entre autoridades norte-americanas e ucranianas em Miami, ele disse que ainda havia trabalho a ser feito.
Falando em uma sala de reuniões dourada nos escritórios presidenciais no centro de Kiev, Zelenskiy disse que a Rússia está apostando que Washington perderia o interesse se as negociações de paz parassem e se afastaria. Ele reconheceu que havia algum risco de que isso acontecesse.
Uma quarta rodada de negociações trilaterais, prevista para este mês, foi adiada devido ao conflito com o Irã.
Zelenskiy questionou, no entanto, se a Rússia estaria disposta a sacrificar centenas de milhares de soldados a mais em um esforço para capturar a área de Donbas que ainda não controla -- cerca de 6.000km². Ele repetiu que uma cúpula com Trump, Putin e ele próprio era a única maneira de resolver questões pendentes sobre território e garantias de segurança para fechar um acordo de paz.
O líder ucraniano ignorou as tensões passadas entre ele e Trump. "Não sou uma caixa de chocolates ou um carro, para ser apreciado ou não por uma pessoa ou outra", disse ele. "Na minha opinião, o presidente dos Estados Unidos vê isso de forma mais pragmática e provavelmente quer que a guerra termine rapidamente. Nós também queremos que isso aconteça rapidamente."
(Reportagem de Daniel Flynn e Olena Harmash)


