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Europa rebate Trump e vai lutar por acordo

WASHINGTON e BRUXELAS — Os esforços dos líderes mundiais para convencer o presidente americano, Donald Trump, a manter os EUA no acordo sobre o programa nuclear iraniano não foram suficientes. Logo após o anúncio da retirada americana, os principais nomes da política europeia lamentaram a decisão e expressaram preocupações com o futuro do pacto, mas se mostraram determinados a manter vivo o acordo — assinado em junho de 2015 após um longo período de negociações — mesmo sem a presença dos EUA, posição também adotada pelo governo iraniano.

Líderes de França, Reino Unido e Alemanha — países signatários do pacto — divulgaram uma nota conjunta logo após o pronunciamento de Trump, na qual reforçaram seu compromisso com o Plano Abrangente Conjunto de Ação (JCPOA, na sigla em inglês, nome dado ao acordo), descrito como “um instrumento necessário para a segurança compartilhada”.

“Lembramos que o JCPOA foi endossado de maneira unânime pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas na Resolução 2231, que permanece como o documento legal internacional vigente para a resolução da questão do programa nuclear iraniano”, afirma o comunicado conjunto. “Exortamos todos os lados a manterem seu compromisso com a completa implementação do acordo e a agirem com espírito de responsabilidade.”

Em Bruxelas, representantes dos três países e da União Europeia (UE) se reuniram com o vice-chanceler iraniano, Abbas Araghchi. Em nota, o bloco europeu afirmou que os representantes “usaram a oportunidade para reiterar seu apoio à completa implementação do acordo por todas as partes”.

Em pronunciamento exibido pela TV estatal, o presidente iraniano, Hassan Rouhani, voltou a afirmar que o país segue comprometido com os termos do acordo, e condenou o que chamou de “guerra psicológica” por parte de Washington. O presidente, no entanto, alertou que o país voltará a enriquecer urânio caso um acordo com os outros signatários não for logo alcançado. No Twitter, Hesamodin Ashna, um dos principais conselheiros do presidente, afirmou que “a resposta iraniana a Trump não será acelerada, mas será dolorosa”.

A chefe diplomática da UE, Federica Mogherini, exortou o regime iraniano a não permitir que a decisão de Trump destrua o acordo, afirmando que o bloco europeu o preservará juntamente com a comunidade internacional.

— Esse acordo é um dos maiores feitos que a diplomacia já conquistou, e nós o construímos juntos — afirmou Mogherini, em mensagem ao povo iraniano. — Como sempre dissemos, o acordo nuclear não é um acordo bilateral, e nenhum país pode dar fim a ele de maneira unilateral. O acordo nuclear com o Irã é crucial para a segurança do Oriente Médio, da Europa e de todo o mundo.

Em comunicado, a Chancelaria da Rússia se disse “desapontada” com a decisão americana, e afirmou que o país — signatário do pacto — continuará a desenvolver relações bilaterais com Teerã.

“Não existem — nem podem existir — motivos para rachar o JCPOA. O acordo mostrou toda a sua eficiência, e com sua saída, os Estados Unidos minam a confiança internacional na Agência Internacional de Energia Atômica”, diz a nota russa.

Mas, se na Europa a decisão americana foi recebida com temores e condenação, o mesmo não aconteceu nos países aliados a Washington no Oriente Médio. Em Israel e nos países do Golfo Pérsico, líderes locais elogiaram efusivamente Trump pelo anúncio, que classificaram como “um evento histórico”. Bahrein, Arábia Saudita e Emirados Árabes destacaram que a decisão de Trump é uma resposta “às tentativas iranianas de desestabilizar o Oriente Médio e propagar o terrorismo”.

Em pronunciamento televisionado minutos após o anúncio de Trump, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, classificou o acordo como “uma receita para o desastre na região e para a paz mundial”.

— Israel se opôs ao acordo nuclear desde o início porque dissemos que, em vez de bloquear o caminho do Irã rumo a uma bomba nuclear, o acordo na verdade pavimentava o caminho para um arsenal de bombas nucleares em poucos anos — afirmou Netanyahu. — A retirada de sanções nos termos do atual acordo já produziu resultados desastrosos e não afastou a ameaça da guerra. Na verdade, aumentou dramaticamente a agressividade do Irã.

O governo da China, último dos países signatários do acordo, não se pronunciou oficialmente sobre a decisão dos Estados Unidos, mas analistas ouvidos por emissoras americanas acreditam que o retorno das sanções não afetará relações comerciais entre Pequim e Teerã. Ouvido pela rede Bloomberg antes do anúncio, o embaixador chinês no Reino Unido, Liu Xiaoming, alertou para possíveis repercussões da decisão americana nas negociações sobre o programa nuclear norte-coreano.

— A Coreia do Norte estará observando — afirmou Liu. — Abandonar um acordo assinado pelo governo anterior dará uma péssima impressão.

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