Por Roberto Samora
SÃO PAULO, 4 Set (Reuters) - Com uma produção crescente de carne de frango, a China deverá ampliar sua participação nas exportações globais e acirrar a competição com o Brasil na próxima década em mercados importantes como o Oriente Médio, avaliou uma especialista chinesa do Rabobank no setor de carnes.
Embora seja atualmente o principal destino da carne de frango brasileira, a China se tornou exportadora líquida da proteína desde 2025, vendendo excedentes de cortes menos consumidos no mercado doméstico, como o peito.
E há espaço para crescer mais, disse Chenjun Pan, em entrevista à Reuters, durante sua passagem pelo escritório do Rabobank em São Paulo.
"Acredito que, potencialmente -- não agora, mas talvez na próxima década --, possa haver alguma competição no Oriente Médio, na Ásia e na África" da carne de frango chinesa com a brasileira, disse a especialista.
A China, o segundo produtor global atrás dos Estados Unidos, foi o quinto maior exportador no ano passado, segundo um relatório anual publicado pela associação da indústria brasileira, a ABPA.
As exportações chinesas somaram pouco mais de 1 milhão de toneladas em 2025, enquanto o Brasil, maior exportador global, embarcou um recorde de 5,3 milhões de toneladas para o exterior.
"A China já exporta carne de frango há muitos anos. Era principalmente carne processada. Mas, recentemente, o país começou a exportar grandes quantidades de carne in natura, como o peito de frango... esse segmento está crescendo rapidamente", disse Pan.
Com a produção crescendo a uma taxa próxima de 10%, a China passou a gerar excedentes exportáveis, uma vez que o consumidor chinês demanda mais pés e asas -- produtos fortemente exportados pelo Brasil para lá --, mas menos cortes como o peito de frango, que tem maior demanda no exterior.
"Os chineses não gostam de carne de peito por uma questão de hábito alimentar. Eles gostam de comer asas e pés", disse Pan.
As exportações chinesas incluem destinos como a Rússia, Hong Kong, Coreia do Norte e países do Oriente Médio.
Contudo, a China não compete com o Brasil em destinos da União Europeia, Japão e Coreia do Sul, uma vez que esses países não aceitam carne de frangos vacinados contra a gripe aviária, uma estratégia chinesa para reduzir impactos do vírus mortal.
OPORTUNIDADE NA CRISE
No primeiro semestre, a produção de carne de frango da China cresceu mais de 9% em relação ao mesmo período do ano passado, após ter avançado cerca de 7% em 2025, segundo a analista do Rabobank.
"Então, está muito, muito forte o crescimento", afirmou. "O aumento da demanda é forte, mas não tão forte quanto o crescimento da produção", pontuou.
A produção de carne de frango da China ganhou mais impulso nos últimos anos como parte da estratégia do governo para reduzir a dependência da carne suína -- os chineses são os maiores consumidores globais dessa proteína.
Durante a crise da peste suína africana, entre 2019 e 2021, houve escassez de carne de porco e os preços dispararam, deixando também as cotações da proteína de frango muito altas.
"Isso atraiu investimentos, expandindo a capacidade de produção de frango chinesa", disse a especialista, acrescentando que o movimento colaborou para a fatia do frango no mercado chinês de carnes ter avançado para 28%.
A estratégia também leva em conta que a produção de frango exige menos milho e farelo de soja por unidade de proteína produzida do que a suinocultura, em um momento em que Pequim busca reduzir sua dependência das importações de grãos para ração.
Segundo Pan, a migração do consumo para proteínas mais eficientes em termos de uso de ração, como o frango, aliada à expectativa de retração da produção de carne suína, tende a limitar o crescimento da demanda chinesa por soja.
Por outro lado, Pan considera que a demanda chinesa por carne bovina tem potencial de crescer no futuro, ainda que no momento esse mercado sofra com restrições da oferta, que incluem tarifas de importação extracota mais altas para o Brasil e outros países.
Ela ressaltou, contudo, que as tarifas mais elevadas devem permanecer até 2028, e que o Brasil poderia ter mais oportunidades depois disso, já que "a demanda na China está migrando de commodities para produtos de valor agregado".
(Por Roberto Samora; edição de Letícia Fucuchima)




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