BERLIM - Favorita segundo todas as pesquisas, a chanceler Angela Merkel teria quase certa a chance de um quarto mandato. Mas o resultado esperado (de 34% a 35%) é assim mesmo bem abaixo do que obteve há quatro anos, quando atingiu 41,5%. A perda é resultado da crise dos refugiados, que segundo os analistas não foi ainda inteiramente superada.
Admirada como a política anti-Trump, a chanceler não conseguiu se recuperar em 100% da sua crise mais grave. E, mesmo se vencer, vai enfrentar o desafio de uma complicada negociação para a formação do novo governo. Favorecida pelo fracasso que se desenha do seu principal adversário, Martin Schulz — candidato do Partido Social Democrata (SPD) e que corre o risco de obter o pior resultado da legenda desde a Segunda Guerra Mundial — Merkel é criticada pelos mais conservadores da União Democrata Cristã (CDU) como responsável pelo surgimento do AfD (Alternativa para a Alemanha), de extrema-direita.
— Ela provavelmente vencerá, mas vai receber o troco por sua política, que ainda hoje divide os alemães — lembrou Werner Patzelt, da Universidade de Dresden.
Uma vitória magra reduz as chances da formação da sua coalizão preferida: aliança da CDU/CSU com o Partido Liberal Democrata (FDP), a mesma constelação com a qual ela cumpriu o seu segundo mandato, de 2009 a 2013. Mas, juntos, os dois ficariam com apenas 43 ou 44%, segundo as pesquisas.
Com a possível entrada da extrema-direita no Parlamento, a formação de coalizões fica ainda mais difícil. Até o governo de Helmut Schmidt, havia apenas três partidos no Parlamento: CDU/CSU, SPD e FDP. Com o início da era Kohl, surgiram os Verdes. Depois da reunificação alemã, veio “A Esquerda”.
Restaria a Merkel uma nova edição da “grande coalizão”, como no governo atual. Junto com o SPD, Merkel teria maioria por volta de 57% a 59%, mas a maior dificuldade nesse caso seria a resistência do SPD, que depois de apoiar Merkel em dois governos (o primeiro e o último) despencou em popularidade. Schulz e Sigmar Gabriel já começaram a inflacionar as exigências para mudar de ideia e voltar a apoiar a chanceler mais uma vez.
— O SPD corre o risco de desaparecer se continuar funcionando como o encarregado de ajudar Merkel a formar sua maioria — observa Patzelt.
Sem o SPD, a chanceler terá como única opção a chamada “Jamaica”, de CDU/CSU com o FDP e os Verdes (preto, amarelo e verde).
Apesar dos quase 40% ainda indecisos, analistas não consideram possível uma mudança tão radical. Para tirar Merkel do poder, Schulz precisaria formar maioria com os verdes e a esquerda, a chamada “coalizão semáforo”, do SPD com os Verdes e o FDP.
Embora a coligação seja possível do ponto de vista ideológico, os três juntos ficariam com apenas 38% a 40%. Mas se tiverem um melhor desempenho, essa aliança seria teoricamente possível.
— A Schulz resta apenas a opção de ser o parceiro júnior de Merkel — concluiu Patzelt.
Já Gero Neugebauer lembra que os sociais-democratas estão furiosos depois que foram humilhados pela chanceler. Em resposta a Gabriel, que havia elogiado os projetos da responsabilidade do SPD no atual governo, Merkel lembrou que ele só pôde fazer algo porque teve a sua permissão.
— O SPD foi humilhado como se fosse o poodle de Merkel — concluiu Neugebauer.

