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Indústria de baterias do Brasil pede ao governo incentivo ao produto nacional no 1º leilão

Reuters

Por Leticia Fucuchima

SÃO PAULO, 17 Abr (Reuters) - Fabricantes brasileiras de baterias estão pedindo ao governo incentivos à contratação do produto nacional no primeiro leilão voltado para a inserção da tecnologia no sistema elétrico, a fim de evitar que toda a demanda seja suprida por importações, disseram à Reuters três fontes com conhecimento do assunto.

O movimento, capitaneado por empresas como WEG, Moura e UCB Power, propõe alternativas que vão desde uma contratação específica de parte da demanda do certame em baterias nacionais, sem concorrência direta com as importadas, até incentivos por meio de pontuação e linhas de financiamento do BNDES, disseram as fontes.

A ideia é garantir encomendas para a indústria de sistemas de armazenamento de energia (BESS, na sigla em inglês) que começa a se desenvolver no Brasil, e evitar que o leilão seja totalmente dominado pelas importações, principalmente vindas da China, onde uma sobreoferta no mercado de baterias tem derrubado os preços.

"Competir por igual, totalmente por igual, como é em leilão, é muito provável que a gente vá perder tudo", disse um executivo da indústria nacional, que falou sob condição de anonimato.

Prometido para este ano, o leilão inédito de baterias vem atraindo grande interesse tanto de empresas que poderão operar esses sistemas, como as elétricas Axia, Engie e ISA Energia, quanto de fornecedores. BYD, Huawei e CATL, da China, e a norte-americana Tesla estão entre as gigantes dessa indústria que já demonstraram publicamente estudar o certame.

O governo já admitiu que estuda a inclusão de regras de conteúdo local no certame, mas não deu detalhes sobre como isso funcionaria.

Para as fontes, o BESS "nacional" ainda contaria com importação das células, seu principal componente, já que o Brasil não tem capacidade de produção. Mas a avaliação é de que poderia haver nacionalização do restante do sistema: "packs" de baterias, software de gerenciamento, inversores e outras infraestruturas.

Segundo uma das fontes, o ideal seria a criação de um produto específico para o BESS nacional, sem competição direta com o importado, seguindo uma lógica parecida com a do leilão de capacidade do mês passado, quando termelétricas foram contratadas separadamente das hidrelétricas.

Já outro executivo defendeu que o produto nacional seja incentivado por meio de sistema de pontuação, garantindo que ele seja mais competitivo. Segundo ele, não há definição sobre propor um percentual de conteúdo nacional para todos os projetos do leilão.

Em relação a custos, eles reconhecem que o BESS nacional tende a ser mais caro do que o importado, mas ressaltam que a produção brasileira garante qualidade. Há uma preocupação de que fabricantes internacionais menos consolidados pratiquem preços agressivos e, depois, apresentem problemas de qualidade.

"Realmente, é uma questão até de proteção", disse uma das pessoas, afirmando que licitações recentes no Chile e Argentina já registram problemas com fornecedores estrangeiros.

Outros agentes consultados avaliaram que a proposta não é ruim e poderia ser bem aceita mesmo entre empresas que sairiam perdendo, desde que destrave o certame, que está atrasado frente ao cronograma inicialmente divulgado pelo governo.

"O mais importante é que o leilão saia, e ter uma previsibilidade sobre as contratações no futuro", disse um executivo.

A WEG já vem apostando no segmento de BESS há anos e, em fevereiro, anunciou que construiria uma fábrica dedicada em Itajaí (SC), com crédito de mais de R$280 milhões do BNDES. A Moura é tradicional em baterias para veículos leves e pesados e industriais, e também criou uma vertical para BESS. Já a UCB fornece soluções de armazenamento sobretudo para telecomunicações e aplicações críticas, e recentemente teve parte de seu capital comprado pelo grupo chinês Vision.

Procurada, a ABSAE, associação que representa o setor de armazenamento, afirmou que a política de conteúdo local "ainda gera opiniões divergentes entre os diversos atores do mercado e algumas incertezas sobre a forma de operacionalização", mas que espera que essas questões "sejam brevemente superadas".

Moura e UCB responderam, separadamente, que estão contribuindo com o debate, e que a valorização da indústria nacional pode ser fator relevante para o desenvolvimento do país, com geração de empregos e estímulo à inovação tecnológica.

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior reafirmou que o governo estuda regras de conteúdo local para o leilão, e que os detalhes ainda estão em discussão. A pasta ressaltou que o desenvolvimento da cadeia produtiva de baterias está entres as prioridades da Nova Indústria Brasil e vem sendo estimulado por políticas públicas.

A WEG disse que não iria comentar. O Ministério de Minas e Energia não respondeu.

CORRIDA PARA O LEILÃO

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, disse no início do ano que pretendia realizar o certame ainda neste primeiro semestre, mas a visão no setor é de que esse cronograma é inviável.

Segundo a ABSAE, as diretrizes finais do certame precisam ser publicadas em até 15 dias para que ele possa ocorrer ainda em 2026, já que seriam necessários cerca de cinco meses para todos os preparativos.

Outras questões também têm jogado incertezas sobre o leilão, como a demora na aprovação da regulamentação das baterias por parte da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e a imposição dos custos dessa contratação sobre os geradores, conforme lei aprovada no ano passado.

(Por Letícia Fucuchima; edição de Roberto Samora)

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