Por Kaori Kaneko e Mariko Katsumura
TÓQUIO, 27 Ago (Reuters) - Yayoi Kusama, a aclamada artista japonesa de vanguarda que transformou suas alucinações em obras que iam desde pinturas vibrantes cobertas de pontos e esculturas de abóbora até instalações de salas com espelhos infinitos, morreu aos 97 anos.
De estatura pequena e conhecida por usar uma peruca vermelha curta nos últimos anos de vida, Kusama era franca sobre suas dificuldades com a saúde mental, afirmando que, desde a infância, tinha visões e alucinações de luzes piscantes, pontos e flores.
“Ainda tenho alucinações até hoje”, disse ela a repórteres em 2017. “Pontos voam por toda parte — no meu vestido, no chão, nas coisas que estou carregando, por toda a casa, no teto. E eu os pinto.”
Kusama faleceu no hospital em 14 de agosto, de acordo com um comunicado do Museu Yayoi Kusama, que acrescentou que ela continuou a pintar até seus últimos dias. A causa da morte não foi divulgada.
Durante sua vida, ela alcançou um enorme sucesso comercial — algo raro para um artista, especialmente para uma mulher. Suas exposições internacionais atraíram grandes multidões e suas obras costumavam ser vendidas por mais de US$1 milhão. Uma pintura, “Sem Título (Redes)” (1959), foi vendida por US$10,5 milhões em 2022.
Entre suas obras mais conhecidas está a série Infinity Mirror Room. Uma delas, Narcissus Garden, apresenta entre 1.000 e 1.500 esferas espelhadas que imitam um campo reflexivo em constante mudança.
Ela a apresentou pela primeira vez em 1966 na Bienal de Veneza, vestida com um quimono dourado e tentando vender as esferas aos visitantes por cerca de US$2 cada. Uma placa dizia: “Seu narcisismo à venda.”
INFÂNCIA TURBULENTA
Nascida em 22 de março de 1929, na cidade de Matsumoto, no centro do Japão, Kusama teve uma infância conturbada, marcada por conflitos familiares. Ela disse que era dominada pelo medo e que chegava ao ponto de querer morrer todos os dias.
“O que me impediu de pôr fim à minha vida foi desenhar e fazer arte. Isso nunca mudou. Foi ao descobrir meu amor pela arte que consegui sobreviver e continuar vivendo até hoje”, disse ela em uma entrevista de 2014 à Vogue Japão.
Durante seus anos de escola, ela teve como mentor o pintor japonês Kakei Hibino e, mais tarde, ingressou na Escola Municipal de Artes e Ofícios de Kyoto para estudar pintura tradicional japonesa.
Frustrada com a natureza restritiva da sociedade japonesa, Kusama partiu para Nova York em 1957. Lá, ela rapidamente ganhou notoriedade, exibindo pinturas em rede, esculturas macias, criando eventos de pintura corporal, bem como happenings para protestar contra a Guerra do Vietnã. Ela também escreveu ficção e poesia.
No entanto, sua saúde mental se deteriorou e ela retornou ao Japão em 1973, internando-se voluntariamente em um hospital psiquiátrico quatro anos depois, onde continuou a viver, sendo levada de carro até seu ateliê nas proximidades todas as manhãs.
Kusama ganhou inúmeros prêmios, incluindo a Ordem da Cultura, do Japão, e a Ordem das Artes e das Letras, da França.



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