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Jornalista que entrevistou Christa Pike há 20 anos diz que americana queria 'morte tranquila'

Estadão

A jornalista Helen Roberts relatou ao jornal britânico BBC como foi entrevistar, há 20 anos, a americana Christa Pike, condenada à morte por homicídio e que sobreviveu a duas tentativas de execução por injeção letal.

Em uma entrevista publicada nesta quarta-feira, 7, Helen afirmou que conversou com Christa em dezembro de 2006, quando era editora da revista de estilo de vida feminina More . A jornalista saiu de Conwy, no norte do País de Gales, e foi até uma prisão de segurança máxima em Nashville, nos Estados Unidos, conhecida atualmente como Centro de Reabilitação Debra K. Johnson, onde Christa estava presa.

Christa foi condenada à morte em 1996 pelo assassinato de sua colega de classe Colleen Slemmer, ocorrido um ano antes, no Tennessee. Ela foi a mulher mais jovem a receber uma sentença de morte na era moderna. O namorado dela da época, Tadaryl Shipp, também participou do assassinato, mas foi condenado à prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional porque era menor de idade. Ele ainda está preso.

Na semana passada, Christa sobreviveu a duas doses de uma substância letal durante a tentativa de executá-la. A droga não a matou, mas seus advogados afirmaram que seus braços ficaram queimados e cobertos de bolhas. Na terça-feira, 6, a defesa disse que a mulher, que está internada em um hospital, estava acordada e conseguia falar.

À BBC , Helen disse que tem acompanhado o caso e comentou o encontro de 20 anos atrás. "Às vezes era muito difícil conciliar a mulher à minha frente com o crime que ela havia cometido", afirmou.

"Eram como duas pessoas completamente diferentes. Eu não conseguia imaginar que a pessoa que conheci pudesse ser tão horrivelmente violenta."

A jornalista contou que nunca havia entrado em uma prisão e que se sentia "nervosa", "insegura" e "intimidada". A entrevista foi realizada por meio do telefone da cabine do presídio, com uma janela de vidro entre elas.

Helen afirmou que esperava encontrar uma "mulher muito honesta e brutal", mas que a pessoa que ela conheceu era muito diferente. Segundo ela, Christa parecia afável e "ansiosa para agradar". A mulher estava rindo, sorrindo, atenta a tudo, manteve "muito contato visual" e "foi muito comunicativa".

"Ela foi direta ao ponto, não se mostrou defensiva, não foi difícil, nem evasiva. Para ser sincera, ela respondeu a todas as minhas perguntas de forma bastante articulada e aberta", disse a jornalista.

"Ela estava ansiosa para responder. Só que, às vezes, ela parecia uma pessoa bastante comum", acrescentou.

Segundo a jornalista, Christa afirmou que não tinha noção da magnitude do que estava acontecendo durante o julgamento, mas gostava de ser o centro das atenções, "porque nunca tinha sido".

Helen disse que, ao ser questionada sobre o crime, Christa respondeu a todas as perguntas. "Não houve nenhuma emoção diferente", afirmou. "Ela já estava no corredor da morte havia 11 anos, e provavelmente já havia passado muito tempo sozinha, processando e assimilando o que tinha feito."

"Ela falava de si mesma como se fosse uma pessoa completamente diferente. Disse que perdeu a cabeça na noite em que matou Colleen. Disse que foi como uma experiência extracorpórea, que não tinha noção do que estava fazendo e que era como se alguém tivesse tomado posse dela."

Segundo a jornalista, Christa lamentava o que havia feito, mas não acreditava que nada que dissesse pudesse compensar o ocorrido. A americana relatou à Helen que seus pais eram alcoólatras e que a avó morreu de câncer quando ela tinha 12 anos.

"Ela foi estuprada aos 11 anos por um vizinho e novamente aos 17 por um estranho que, segundo ela, a arrastou para o bosque. Ela passou por diferentes períodos de negligência e abuso", disse a jornalista.

Helen relatou que, na época, a mulher ainda tinha esperança de que a execução fosse anulada caso fossem reconhecidos o impacto da infância e os efeitos de sua saúde mental em suas ações. "Ela sabia que as duas opções eram pena de morte ou prisão perpétua, mas definitivamente queria prisão perpétua e uma morte tranquila", disse.

Como era a única mulher no corredor da morte, Christa não podia conviver com os outros detentos. Ela escrevia para amigos, assistia à televisão e lia, além de fazer caminhadas de até uma hora em alguns dias.

Na última semana, a jornalista acompanhou o caso de Christa a distância. "Eu tinha lido que ela havia recusado sua última refeição... Não consigo nem imaginar o que ela estava pensando, como se sentia e como alguém se prepara sabendo que vai morrer."

"E depois a ironia do Estado tentar matá-la e, em seguida, ela ser levada para o hospital para tentar salvá-la. Não faz o menor sentido", acrescentou.

"Independentemente do que eu tenha dito sobre Christa Pike, de forma alguma estou minimizando o crime que ela cometeu", disse Helen. "Ela merecia estar na prisão, claro que sim. Ela cometeu um crime, tirou a vida de outra mulher e tinha que ser punida por isso."

"No entanto, é impossível não pensar: se ela tivesse recebido ajuda quando precisou, será que teria feito o que fez?", questionou a jornalista.

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