Por Francois Murphy e Christine Uyanik
BRAUNAU AM INN, ÁUSTRIA, 22 Jul (Reuters) - O prédio onde Adolf Hitler nasceu, próximo à fronteira da Áustria com a Alemanha, passou oficialmente a ser usado como delegacia de polícia nesta quarta-feira, uma conversão que o governo austríaco espera que impeça que o local se torne um ponto de peregrinação para neonazistas.
Após anos de debate sobre a grande casa tradicional na cidade de Braunau am Inn, que era de propriedade privada e abrigava uma instituição de caridade para pessoas com deficiência, a Áustria realizou uma desapropriação em 2017 e anunciou, em 2019, que o local seria reformado e transformado em delegacia de polícia.
Mesmo antes da conversão, o único sinal de seu significado histórico era uma pedra na calçada proveniente do campo de concentração de Mauthausen com a inscrição “Nunca mais fascismo”, que não menciona Hitler. A pedra permanece no local. A única placa adicionada à fachada branca diz “Polícia”.
“O objetivo é evitar qualquer associação com Adolf Hitler, a fim de retirar toda a mística do local”, disse o chefe do departamento de história do Ministério do Interior austríaco, Stephan Mlczoch, a repórteres durante uma visita ao prédio.
CULTO À PERSONALIDADE
Essa mística foi incentivada pelo culto à personalidade em torno de Hitler dos nazistas, sob cujo governo a “casa de nascimento do Führer” funcionava como museu de arte. Hitler morou ali apenas por algumas semanas em 1889, antes de sua família se mudar, disse Mlczoch.
“A polícia de hoje, nossa polícia federal Austríaca, é exatamente o oposto do simbolismo associado a este lugar. Nossa polícia defende... a democracia e o Estado de Direito”, afirmou o ministro do Interior, Gerhard Karner, durante a cerimônia de inauguração.
Os transeuntes costumam parar para tirar fotos, mas suas opiniões sobre Hitler geralmente não são conhecidas. Autoridades locais afirmaram que agora há apenas “incidentes isolados” envolvendo visitantes, em número menor do que antes.
A saudação hitlerista e outros símbolos nazistas são proibidos na Áustria.
Questionado sobre a reação do público ao projeto, o prefeito Johannes Waidbacher disse à Reuters: “Acho que, no geral, a população de Braunau aceitou a situação e consegue conviver com ela.”
Waidbacher fazia parte de uma comissão que recomendou que o prédio fosse usado para fins beneficentes ou administrativos oficiais. No fim das contas, ter uma instituição de caridade sediada ali teria tornado o local muito acessível ao público, disse ele.
“Acho que não é uma abordagem ruim, mas se vai funcionar como todos esperamos e desejamos, teremos que esperar para ver”, disse ele.
NUNCA MAIS, OU VAMOS ESQUECER?
Houve alguma oposição, inclusive por parte do Comitê de Mauthausen, o principal grupo de sobreviventes do Holocausto da Áustria, que argumentou tanto que uma delegacia de polícia é inadequada quanto que mais deveria ser feito para chamar a atenção para os crimes de Hitler.
“Todos os anos, no memorial do campo de concentração de Mauthausen, há uma cerimônia para dizer: nunca mais. E em Braunau estão dizendo: vamos esquecer o mais rápido possível”, disse Robert Eiter, do Comitê de Mauthausen e da Rede Contra o Racismo e o Extremismo de Direita.
Durante décadas, a Áustria argumentou que foi a primeira vítima do nacional-socialismo, tendo sido anexada pela Alemanha de Hitler em 1938. Agora, o país afirma que os austríacos também foram perpetradores, mas raramente aprofunda essa questão.
“O mundo não vai esquecer onde nasceu o pior assassino em massa da história. A Wikipedia não vai alterar suas entradas”, disse Eiter, acrescentando que não haverá redução no número de neonazistas que fazem “a peregrinação a Braunau”.
Alguns moradores locais questionaram a conversão.
“Eu teria preferido que tivessem feito outra coisa, mas é o que é”, disse Irene, de 74 anos, acrescentando que gostaria que a instituição de caridade permanecesse no local.
A maioria, no entanto, se mostrou favorável.
“É ótimo e uma boa ideia”, disse Thomas Spreitz, um corretor imobiliário. “De vez em quando aparecem grupos (neonazistas) por lá, e agora isso é coisa do passado.”



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