A menos de duas semanas das eleições, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva usará seu discurso de abertura na Assembleia-Geral da ONU, nesta terça-feira, 22, para falar de soberania e democracia, duas das suas principais bandeiras na disputa presidencial.
O petista desembarcou no domingo, 20, em Nova York com a intenção de falar para o público doméstico em meio à corrida eleitoral do próximo dia 4. Lula concorre à reeleição e tem como principal adversário o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Lula vai mencionar tarifas, regras de comércio e combate ao crime organizado transnacional. O presidente também deve se manifestar em defesa do multilateralismo.
Apesar dos embates, o mandatário não deve citar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas vai fazer contrapontos ao republicano, em linguagem polida. O governo tem manifestado preocupação de que os americanos interfiram no pleito brasileiro.
Um encontro entre Lula e Trump não está na agenda, mas também não é descartado pelo governo. Os dois podem se cumprimentar e conversar brevemente nos corredores da Assembleia-Geral, como aconteceu no ano passado, quando Trump disse que os dois tinham tido muita "química".
O Brasil é o primeiro a discursar no Debate Geral desde os primeiros anos da ONU, consolidando-se como uma tradição diplomática. Em seguida vêm os Estados Unidos, anfitrião do evento. Essa coincidência de horário permite que os líderes possam se esbarrar rapidamente nos corredores e trocar algumas palavras.
A arena internacional, principalmente os encontros com Donald Trump, se tornaram uma agenda de batalha entre os dois principais candidatos a presidente.
Lula visitou Trump em Washington em maio, quando conversou sobre uma prorrogação do prazo do tarifaço ao Brasil. Dias depois, foi a vez de Flávio ir à Casa Branca, ocasião em que o governo americano declarou o PCC e o CV como grupos terroristas.
Lula chegou aos Estados Unidos no domingo a noite e está hospedado na residência oficial do embaixador do Brasil na ONU, Sérgio Danese.
Na segunda-feira, o presidente brasileiro concedeu entrevista à apresentadora Christiane Amanpour, da CNN americana, e se reuniu com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e o senador Bernie Sanders.
Lula chama Trump de 'imperador'
Na entrevista à apresentadora da CNN americana, Lula voltar a chamar Trump de "imperador" por conta de suas práticas comerciais. O brasileiro já havia utilizado este adjetivo contra o americano durante a reunião de líderes do G-7 na França.
O presidente brasileiro defendeu o multilateralismo como a melhor forma de governar para manter a "harmonia" entre os países.
"É uma forma de governar com a qual não concordo. Ele tem um jeito de governar baseado em sou o mais forte, sou o mais poderoso, sou o mais rico, posso tudo, e todos os outros têm que obedecer. É a lei do mais forte", disse o presidente brasileiro.
O petista também disse que pediu que Washington não interfira nas eleições brasileiras.
"Eu falei pro Trump que é bastante importante para os EUA não interferirem nas eleições brasileiras, porque temos uma relação diplomática de mais de 200 anos. O povo brasileiro não é antiamericano. Nós temos uma relação muito sofisticada com os EUA", declarou.
"As eleições brasileiras são do interesse do povo brasileiro, e as eleições dos EUA são do interesse do povo americano. Portanto, é o povo que importa; é o povo que comete erros ou acertos. Mas essa é uma responsabilidade do povo. E eu não quero que os EUA interfiram de forma alguma. Há alguns indícios de interferência, de uso de inteligência artificial".
Lula e Orsi falam de bets
Mais cedo, Lula se reuniu com o presidente uruguaio, momento em que conversaram sobre questões comerciais e a regulamentação das bets no Uruguai.
O governo prepara uma medida provisória para proibir cassinos virtuais, deixando bets esportivas e patrocínios a clubes e campeonatos esportivos de fora.
"Tratamos de temas da agenda bilateral, em especial infraestrutura e comércio agrícola. Agradeci a autorização concedida ao Brasil para uso do excedente da cota uruguaia de exportação de carne bovina para a China", escreveu o brasileiro no X. "Também manifestei interesse em conhecer a experiência uruguaia de regulamentação das apostas online (bets)."
Os dois conversaram também sobre "a integração latino-americana e caribenha, bem como sobre as ameaças do extremismo político e da desinformação na região e no mundo."
O uruguaio chamou Lula de "querido amigo" em publicação no X. "Em Nova York falamos de comércio, infraestrutura compartilhada, desenvolvimento produtivo, integração e regulação das apostas esportivas."
Mamdani chama Lula de 'inspiração'
Já Mamdani e o presidente brasileiro conversaram sobre formas de combater a pobreza e trocaram experiências de governança. Os dois trocaram elogios e presentes em frente aos jornalistas.
Lula disse ter perguntado a Mamdani sobre os problemas da cidade americana e pediu que o prefeito de Nova York siga lutando pelo fim da pobreza no mundo.
Mamdani, por sua vez, disse que o principal problema da cidade é o custo de vida, lembrando da plataforma que o elegeu no ano passado. O prefeito afirmou que Lula é uma inspiração para ele.
Os dois também conversaram sobre a proposta de redução da jornada de trabalho que tramita no Congresso brasileiro e a importância da defesa da democracia e do enfrentamento do extremismo e da desinformação no mundo todo, segundo um comunicado do Palácio do Planalto.
Lula presenteou Mamdani com uma camisa do Corinthians, enquanto o prefeito de Nova York deu uma camiseta comemorativa da cidade.
O presidente brasileiro deve retornar ao Brasil já na terça-feira, logo depois de seu discurso na Assembleia-Geral da ONU.
Uma coletiva de imprensa antes da volta ao Brasil não está descartada, mas não foi confirmada pelo Planalto.
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