BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Os carrinhos de metal feitos com rodas de bicicleta ou de moto são um símbolo da feira de La Salada, no distrito de Lomas de Zamora, na Grande Buenos Aires. O maior mercado popular da América Latina tem de tudo: produtos vendidos por atacado, artigos piratas vindos do Paraguai, roupas, material esportivo, animais de estimação e muitas bugigangas. Em dias normais, a feira abre às 4h para receber os primeiros compradores - muitos chegam de ônibus e vêm de diferentes partes da Argentina e de países vizinhos, como o Paraguai e a Bolívia. Trata-se, em geral, de comerciantes que percorrem os 1.800 postos de venda e usam os carrinhos de metal e seus 1.300 condutores para transportar sacolas cheias que vão abastecer pequenos negócios. A feira também é procurada para compras no varejo, já que os preços ali são muito menores do que os praticados nos shoppings da capital. Em tempos normais, La Salada tem um mar de vendedores ambulantes do lado de fora, recebe 20 mil pessoas por dia e movimenta cerca de US$ 9 milhões (R$ 51 mi) por semana. Mas os tempos não são normais: os carrinhos de metal estão encostados num canto do que parece ser uma grande avenida vazia. Por conta da pandemia do coronavírus, o local está fechado há 35 dias. "Temos quase 30 mil famílias, incluindo as dos vendedores e as dos 'carreros' [condutores], que dependem do comércio aqui. Elas vivem de um dia para o outro. O que ganham num dia é para comprar a comida do dia seguinte", diz Osvaldo Salgado, 57, um dos poucos vendedores que têm ido até lá, para garantir que seu posto segue no lugar. "Estamos no limite, não dá para aguentar mais a feira fechada." Dentro dos galpões, não há mercadoria. Ficaram as placas que mostram onde estão os setores, separados por números de quarteirões e ruas, como uma pequena cidade. Também sobraram os esqueletos dos estandes e alguns manequins pelados, que costumavam servir para exibir as peças de roupa à venda. O "carrero" Francisco Valdéz, 26, está sem trabalhar desde que a feira fechou. Ele conta que os colegas se juntaram para recolher sobras de verduras e legumes nos mercados e preparar um sopão na cooperativa. "Para muitas famílias, é o único prato de comida daquele dia. Mas já não estamos mais dando conta." Pai de dois filhos e única fonte de renda da família, Valdéz diz que não conseguiu ter acesso aos programas de benefício aos informais do governo de Alberto Fernández para tentar amenizar os efeitos da crise entre os mais pobres. "Não tenho nem internet em casa para fazer o cadastro, nem tempo para isso. Preciso sair para buscar comida." O drama da feira mostra um problema social crescente. A Argentina tem 40% do mercado de trabalho na informalidade, e os arredores de Buenos Aires concentram grande parte desses trabalhadores. "Quando a fome for sentida de fato ali, o governo vai ter problemas. É muito fácil respeitar a quarentena na capital, onde vive a classe média. No 'conurbano' [perto de Buenos Aires], a realidade é outra. Se ali houver uma explosão popular, pode desestabilizar a sociedade", diz o cientista político Andrés Malamud. Para Agustín Salvia, da Universidade Católica Argentina, conhecida por ter o melhor estudo independente sobre pobreza no país, cada crise cria uma nova classe de informais. E muitos dos que eram informais descem mais um degrau nos níveis de pobreza. Na terça (21), o governo divulgou uma projeção de que a pobreza no país pode chegar aos 50% da população no pós-coronavírus. Atualmente, esse índice está em 35%, segundo o Indec (Instituto Nacional de Estatística e Censos). Até domingo (26), o presidente Alberto Fernández deve anunciar até quando ampliará a quarentena em vigor no país desde 17 de março. A medida iria até segunda(26), mas o governo já anunciou que o prazo deve ser estendido.