ZURIQUE, 18 Set (Reuters) - A Nestlé informou nesta sexta-feira que está avaliando todas as opções para proteger seus direitos após a decisão do Kremlin de assumir o controle dos negócios da fabricante suíça de alimentos na Rússia, a mais recente medida contra uma empresa ocidental desde o início da guerra na Ucrânia.
A fabricante do café Nescafé e dos chocolates KitKat afirmou que tomou conhecimento da decisão, anunciada em um decreto presidencial na quinta-feira, e que estava avaliando a situação.
“A Nestlé está comprometida em tomar todas as medidas necessárias para proteger seus direitos e garantir a continuidade das operações comerciais no interesse de todas as partes interessadas, especialmente de seus funcionários”, afirmou a empresa em comunicado.
Ela se recusou a comentar mais detalhadamente sobre quais medidas estava considerando.
As ações da Nestlé caíram 1,5% no início do pregão em Zurique.
A Rússia reforçou o controle sobre ativos de propriedade estrangeira desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022. Um decreto de 2023 assinado pelo presidente Vladimir Putin concede a Moscou o poder de colocar sob administração temporária os ativos de países que considere “hostis”.
Moscou também tem usado a lei para levantar recursos por meio de vendas forçadas, impostos de saída e descontos, ao mesmo tempo em que recompensa pessoas ligadas ao Kremlin.
O governo suíço, que tem sido duramente criticado pelo Kremlin por seguir as sanções da União Europeia contra a Rússia, não fez declarações imediatas sobre o assunto.
REDE DE SUPERMERCADOS AUCHAN TAMBÉM É ALVO
A Nestlé possui seis fábricas na Rússia que produzem café, produtos para animais de estimação e fórmulas infantis. A empresa registrou vendas de cerca de 2 bilhões de francos suíços (US$2,4 bilhões) na Rússia em 2021, o último ano em que divulgou números, e conta com cerca de 7.000 funcionários no país.
O valor das vendas corresponde a cerca de 2% do faturamento total da Nestlé, embora analistas estimem que essa contribuição tenha diminuído após a empresa ter reduzido suas atividades no país.
A Nestlé suspendeu a grande maioria das vendas, importações e exportações não essenciais, publicidade e investimentos de capital, disse o analista do Banco Vontobel, Jean-Philippe Bertschy, que estima que a Rússia contribua atualmente com cerca de 1% das vendas do grupo.
“Embora seja negativo para o sentimento do mercado e aumente a perspectiva de uma redução no valor dos ativos ou de uma alienação desfavorável, esperamos um impacto financeiro marginal, dada a contribuição limitada da Rússia para as vendas do grupo”, disse ele.
O grupo francês de supermercados Auchan também foi alvo do decreto de quinta-feira, com seus ativos russos transferidos para a administração temporária da L.E.V. Management.
A Auchan, que opera 230 lojas e um negócio online na Rússia, onde emprega cerca de 30 mil pessoas, se recusou a comentar.
O jornal russo “Kommersant” havia noticiado anteriormente que uma empresa conhecida como KS Logistika solicitou a Putin que colocasse os ativos da Nestlé sob administração temporária.
Em casos anteriores, a administração temporária costumava preceder a expropriação pelo Estado, com os ativos posteriormente transferidos para pessoas físicas ou jurídicas ligadas ao Kremlin.
Outras empresas ocidentais venderam seus ativos na Rússia ou os entregaram a gestores locais para cumprir as sanções ou em resposta às ameaças de Moscou de confiscar ativos de propriedade estrangeira.
A Nestlé justificou a continuidade de suas operações na Rússia argumentando que, como produtora de alimentos, fornece bens essenciais.
Moscou assumiu o controle dos negócios russos da empresa francesa de laticínios Danone e da participação da cervejaria Carlsberg em uma cervejaria local em 2023.
A Danone foi retirada da lista de ativos sob administração estatal temporária da Rússia em março de 2024, em meio a relatos de que um empresário russo conhecido por suas posições pró-guerra planejava comprar o negócio com um grande desconto.
Em dezembro de 2024, a Carlsberg vendeu suas ações na Baltika Breweries por meio de uma aquisição pela própria administração.
O analista da Kepler Cheuvreux, Jon Cox, afirmou que tais experiências não são um bom presságio para a Nestlé.
“Em última análise, a Nestlé pode acabar perdendo esses ativos — cerca de 2% de suas vendas e do caixa imobilizado na Rússia — no futuro próximo, e é improvável que qualquer compensação venha a compensar essa perda”, disse ele.
(Reportagem de John Revill, com contribuição de Makini Brice em Paris)
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