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Papa Leão aponta para menor foco da Igreja Católica em questões sexuais

Reuters
Papa Leão aponta para menor foco da Igreja Católica em questões sexuais
Papa Leão aponta para menor foco da Igreja Católica em questões sexuais

Por Joshua McElwee

CIDADE DO VATICANO, 27 Abr (Reuters) - A turnê recente do papa Leão por quatro países da África foi marcada por denúncias firmes do pontífice sobre despotismo e guerras, além de ataques sem precedentes do presidente dos EUA, Donald Trump, que ganharam as manchetes.

Mas um momento que gerou repercussão menor, no qual o papa disse que a Igreja Católica deveria priorizar as questões de desigualdade e justiça em detrimento das questões de ética sexual, pode ser de importância mais duradoura para o 1,4 bilhão de membros da Igreja, disseram especialistas.

"A unidade ou divisão da Igreja não deve girar em torno de questões sexuais", disse Leão, o primeiro papa dos EUA, em uma coletiva de imprensa em seu voo de volta para casa na quinta-feira.

"Acredito que há questões muito maiores e mais importantes, como justiça, igualdade... que teriam prioridade antes dessa questão específica", disse ele.

Marianne Duddy-Burke, diretora executiva da Dignity USA, grupo que apoia os católicos LGBTQ, chamou as falas do papa de "uma reorientação de prioridades muito significativa e que vem com muito atraso".

Os padres e bispos da Igreja global há muito tempo enfatizam como prioridade máxima seus ensinamentos sobre questões sexuais, incluindo a proibição do aborto, do controle de natalidade e do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Em sua primeira viagem à África em 2009, o falecido papa Bento XVI provocou clamor internacional quando disse que a Igreja não poderia flexibilizar a proibição do uso de preservativos pelos católicos, mesmo para ajudar a combater a transmissão do HIV/Aids.

Bento disse que permitir o uso de preservativos só "aumentaria o problema" do ponto de vista ético.

NOVA ABORDAGEM PARA A IGREJA GLOBAL

Leão fez seus comentários em resposta a uma pergunta sobre a Igreja oferecer bênçãos para casais do mesmo sexo.

Ele disse apoiar uma decisão histórica de 2023 do falecido papa Francisco que permitia que os pastores dessem bênçãos a casais do mesmo sexo informalmente, e caso a caso.

Mas Leão disse que queria dar prioridade a outras questões éticas e não queria que as bênçãos fossem formalizadas ainda mais.

"Para ir além disso hoje, acho que o assunto pode causar mais desunião do que unidade", disse o pontífice de 70 anos.

O reverendo James Keenan, um acadêmico do Boston College, chamou a abordagem de Leão de nova para a Igreja global.

O papa está "declarando que o Vaticano tem uma hierarquia de preocupações e a percepção de que as questões de sexualidade têm uma prioridade singular não é o caso", disse Keenan, um padre jesuíta que fundou uma rede global de acadêmicos católicos com foco em questões éticas.

"Esse é claramente um julgamento prudencial do pontífice... que as questões da bênção do casamento gay não devem ofuscar os desafios mais imediatos das ditaduras e da guerra", disse Keenan.

A Igreja Católica ensina que as relações sexuais fora do casamento heterossexual são pecaminosas. Ela diz que as pessoas com atração por pessoas do mesmo sexo devem tentar ser castas.

MOMENTO "QUEM SOU EU PARA JULGAR" DE LEÃO

Francisco, que liderou a Igreja por 12 anos até sua morte em abril passado, em grande parte também procurou enfatizar os ensinamentos da Igreja sobre questões de justiça.

Em 2013, ao ser questionado sobre os rumores de que um padre que trabalhava no Vaticano era gay, Francisco respondeu de forma célebre: "Se uma pessoa é gay e está buscando o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?"

Esses comentários, sinalizando uma abertura sem precedentes de um papa em relação aos católicos LGBTQ, tornaram-se um momento seminal no mandato de Francisco, amplamente citado e estampado em mercadorias e camisetas.

"Esse parece ser o momento "Quem sou eu para julgar?" de Leão", disse David Gibson, especialista em Vaticano e acadêmico da Fordham University, sobre os comentários do papa na quinta-feira.

"Leão defende a paz e a justiça e considera esses ensinamentos morais tão importantes quanto a ética sexual", disse Gibson.

Francis DeBernardo, diretor executivo do New Ways Ministry, outro grupo que apoia os católicos LGBTQ, elogiou a resposta de Leão.

"Ele listou outros assuntos, mais sociais -- justiça, igualdade, liberdade -- como sendo de maior preocupação moral", disse DeBernardo. "Há anos, os defensores católicos das pessoas LGBTQ+ vêm dizendo a mesma coisa."

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