O papa Leão XIV contestou neste domingo, 29, a ideia de que Deus possa ser usado para justificar guerras e rezou especialmente pelos cristãos no Oriente Médio durante a missa de Domingo de Ramos, celebrada diante de dezenas de milhares de fiéis na Praça de São Pedro, localizada no Vaticano.
Com a guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã entrando no segundo mês e o conflito militar da Rússia na Ucrânia ainda em curso, Leão dedicou seu sermão a afirmar que Deus é o "rei da paz", que rejeita a violência e acolhe os oprimidos.
"Meus irmãos e irmãs, este é o nosso Deus: Jesus, Rei da Paz, que rejeita a guerra e a quem ninguém pode usar para justificá-la", disse. "Ele não escuta as orações de quem faz a guerra, mas as rejeita."
Líderes de diferentes lados do conflito envolvendo o Irã têm recorrido à religião para justificar suas ações. Autoridades americanas, especialmente o secretário de Defesa Pete Hegseth, invocaram a fé cristã para apresentar o conflito como uma luta de uma nação cristã contra seus inimigos.
A Igreja Ortodoxa russa, principal instituição religiosa do país, também tem justificado a invasão da Ucrânia como uma "guerra santa" contra um Ocidente que considera ter se desviado moralmente.
O Domingo de Ramos marca a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, nos dias que antecedem sua crucificação, lembrada na Sexta-feira Santa, e a ressurreição celebrada no Domingo de Páscoa.
Ao final da missa, em uma bênção especial, Leão afirmou que rezava particularmente pelos cristãos no Oriente Médio, que estão "sofrendo as consequências de um conflito atroz". "Em muitos casos, eles não conseguem viver plenamente os ritos destes dias santos", disse.
Mais cedo, o Patriarcado Latino informou que a polícia de Jerusalém impediu a principal liderança da Igreja Católica de entrar na Igreja do Santo Sepulcro. Segundo a instituição, foi a primeira vez em séculos que líderes religiosos foram impedidos de celebrar o Domingo de Ramos no local onde os cristãos acreditam que Jesus foi crucificado.
Leão afirmou ainda que, durante a Semana Santa, os cristãos não podem esquecer quantas pessoas ao redor do mundo sofrem como Cristo sofreu. "O sofrimento delas interpela a consciência de todos. Elevemos nossas orações ao Príncipe da Paz para que sustente os feridos pela guerra e abra caminhos concretos de reconciliação e paz", afirmou.
Semana Santa relembra sofrimento de Francisco
Quando a Semana Santa começou no ano passado, o papa Francisco ainda se recuperava no Vaticano após uma internação de cinco semanas por pneumonia dupla. Ele delegou as celebrações litúrgicas a outros, mas apareceu no Domingo de Páscoa para saudar os fiéis da sacada da Praça de São Pedro.
Em um gesto marcante, realizou então o que se tornaria sua última volta de papamóvel pela praça.
Francisco morreu na manhã seguinte, na segunda-feira de Páscoa, após sofrer um AVC. Seu enfermeiro, Massimiliano Strappetti, relatou posteriormente à mídia do Vaticano que o pontífice lhe disse: "Obrigado por me trazer de volta à praça".
Leão deve presidir os compromissos litúrgicos desta semana e retoma a tradição da cerimônia de lava-pés na Quinta-feira Santa, que relembra a Última Ceia de Jesus com seus discípulos.
Durante seus 12 anos de pontificado, Francisco celebrou o ritual em prisões e centros de acolhimento a refugiados na região de Roma, lavando os pés de pessoas em situação de vulnerabilidade. O objetivo era reforçar a mensagem de serviço e humildade, frequentemente resumida na pergunta que fazia em suas homilias: "Por que eles e não eu?"
O gesto foi elogiado como uma demonstração concreta da ideia de que a Igreja deve ir às periferias para alcançar os que mais precisam de amor e misericórdia. Mas também gerou críticas, especialmente por incluir muçulmanos e pessoas de outras religiões na cerimônia.
Leão retoma tradição do lava-pés
Leão, primeiro papa nascido nos Estados Unidos, está retomando a tradição do lava-pés na basílica de São João de Latrão, onde o ritual foi realizado por décadas. O Vaticano ainda não informou quem participará, embora os papas Bento XVI e João Paulo II costumassem lavar os pés de 12 sacerdotes.
Na sexta-feira, Leão deve presidir a procissão da Sexta-feira Santa no Coliseu de Roma, que relembra a Paixão e a crucificação de Cristo.
No sábado ocorre a Vigília Pascal, durante a qual o papa deve batizar novos fiéis. Poucas horas depois, no Domingo de Páscoa, os cristãos celebram a ressurreição de Jesus.
Leão celebrará a missa de Páscoa na Praça de São Pedro e, em seguida, concederá a tradicional bênção pascal da sacada da basílica.


