Por Marta Nogueira
RIO DE JANEIRO, 11 Mar (Reuters) - A Petrobras vendeu 20 milhões de litros de diesel em um leilão no Rio Grande do Sul nesta quarta-feira, com preços que tiveram alta de até R$1,78 por litro em relação ao valor de venda da estatal no Estado, afirmaram duas fontes com conhecimento do assunto.
A concorrência ocorreu como forma de acalmar o mercado, em meio a relatos de escassez do combustível em plena colheita da safra de soja, enquanto há uma disparada dos preços no mercado internacional diante da escalada de conflitos no Oriente Médio.
As duas fontes afirmaram que o leilão começou já com R$1 por litro acima do valor praticado atualmente pela Petrobras em Canoas (RS), de cerca de R$3,18 por litro.
"O mercado precisava de volume", afirmou uma das fontes, na condição de anonimato.
Procurada, a Petrobras não respondeu imediatamente a pedidos de comentários.
Na véspera, a petroleira disse à Reuters que a venda de produtos por meio de leilão "é uma prática comercial prevista nos contratos firmados com as distribuidoras, com o objetivo de complementar a oferta regular ou a captura de oportunidades através da venda de volumes adicionais, de forma competitiva, transparente e isonômica".
O leilão ocorre após a Reuters publicar no início da semana que a petroleira estava negando pedidos adicionais de diesel para distribuidoras, depois que seus preços atingiram uma defasagem recorde ante o valor praticado no exterior, tornando as importações menos atrativas para empresas que atuam no país.
O preço médio do diesel vendido pela Petrobras no Brasil estava mais de 40% abaixo da paridade de importação na abertura dos mercados nesta quarta-feira, segundo cálculos da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom).
A defasagem ocorre depois que os preços do barril do petróleo Brent, referência internacional, subiram de cerca de US$70 por barril no fim de fevereiro para cerca de US$90 por barril nesta quarta-feira.
Ao optar pelo leilão, a petroleira pôde atender a um volume de pedidos extras sem beneficiar grupos específicos, por meio de concorrência, podendo repassar parte da diferença com o mercado internacional sem alterar seus preços no sistema de vendas tradicional.
A petroleira, que responde por mais de 50% da oferta de diesel no Brasil, tem reiterado que sua política de preços evita repassar volatilidade externa ao mercado doméstico e que irá aguardar que se tenha clareza sobre se há um novo patamar de preços do petróleo antes de tomar qualquer decisão em relação a reajustes.
PREÇOS EM ALTA
Além do que é fornecido pela Petrobras, o Brasil conta com cerca de 25% de diesel importado e o restante é produzido por refinarias privadas.
Nesse cenário, apesar de a Petrobras segurar preços, o diesel já está mais caro nos postos de combustíveis do Brasil. Segundo dados do Índice de Preços Edenred Ticket Log, divulgados na terça-feira, o preço médio do diesel S-10 nos postos do Brasil subiu 7,72% na primeira semana de março em relação à semana anterior, para R$6,70 por litro, com revendedores repassando custos.
O diretor-executivo da Associação Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis (ANDC), Francisco Neves, afirmou que o mercado é livre, aberto e que os impactos externos chegam ao Brasil, de alguma forma, mesmo enquanto a petroleira não realizou um reajuste.
"O seu preço não é só em função do que você comprou, mas é em função da sua necessidade comercial e de repor o seu estoque", afirmou Neves, cuja associação representa seis distribuidoras regionais, com até 10% da participação de mercado no Brasil.
Segundo ele, não há muita clareza atualmente sobre quanto será cobrado pelo combustível futuramente e é preciso se proteger de uma eventual elevação de preços para garantir sua reposição de estoques.
"Se eu for repor o meu estoque, eu vou ter que comprar pelo preço que estará sendo ofertado. Qual será esse preço? Ninguém sabe. Então ele tem que ter uma estimativa desse preço em função do que está ocorrendo mesmo no mercado internacional."
Neves adicionou que o preço realizado no leilão da Petrobras poderia mostrar o apetite do mercado e até quanto os agentes estariam dispostos a pagar. "Isso certamente é um parâmetro", afirmou.
(Por Marta Nogueira)

