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Programa de governo na Saxônia-Anhalt dá indícios de como a AfD pensa a Alemanha

Estadão

A vitória do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão) no Estado da Saxônia-Anhalt pode dar pistas do pensamento da legenda para o restante do país. A eleição, que ocorreu neste domingo, 6, deu à AfD 43,8% dos votos, o que lhe garantiu a maior delegação do parlamento e a chance de colocar Ulrich Siegmund como o primeiro governador da direita populista desde o pós-Guerra.

O cargo ainda não está garantido por Siegmund, já que o partido conseguiu 39 dos 42 assentos necessários para assegurar maioria no parlamento, mas algumas opções de cooperação já estão sendo analisadas pelo partido. Para além do Brandmauer, uma espécie de acordo de não colaboração com a extrema direita, partidos dispostos a conversar com a AfD têm tido divergências sobre as ideias de governo - algo que pode refletir em todo país futuramente.

"Nós vamos trazer nosso país de volta começando pela Saxônia-Anhalt. Isso vai balançar toda a Alemanha. As pessoas desse país, votando em nós, depositam a sua confiança e não vamos decepcioná-los. Não vou tentar me encaixar em nenhum grupo, nós vamos ser a alternativa para a Alemanha. Nós estamos no caminho certo", afirmou Siegmund na concentração da AfD em Magdeburg, no domingo, 6.

Plano de governo tem pontos de divergência com possíveis aliados

Siegmund tem sido enfático em várias questões sensíveis para a Alemanha, incluindo a representação do próprio país dentro das escolas e a imigração, tema que guiou a campanha do candidato pela região.

A Saxônia-Anhalt está entre os Estados que mais receberam imigrantes na crise de 2015 - cerca de 34 mil pessoas pediram asilo na região, cerca de 1,5% da sua população na época. Segundo o Ministério do Trabalho, Assuntos Sociais e Integração do Estado, esse foi o maior número de requisições já registrado localmente.

O plano de governo da AfD para a Saxônia-Anhalt prevê uma ofensiva de deportação, com cerca de 100 milhões de euros para financiar a operação, que deve envolver o ministro do Interior e o ministro da Justiça e voos fretados saindo da região, de acordo com o documento.

A prioridade, em um primeiro momento, será de estrangeiros considerados "criminosos e indivíduos que representam risco". A operação também deve incluir sanções e cortes de verbas para funcionários ou organizações que ajudem estrangeiros que tiveram seu pedido de asilo negado.

De acordo com o plano de governo, caso assuma o Estado, Siegmund pretende iniciar um longo processo para retirar a Saxônia-Anhalt da rede pública regional de radiodifusão, alegando preocupações com a "desinformação".

A AfD também quer permitir o ensino domiciliar, o que até o momento não é permitido na Alemanha. O partido se compromete a proibir que as escolas hasteiem oficialmente a bandeira arco-íris, que, segundo ele, "representa a desvalorização da família", e a garantir que hasteiem a bandeira nacional.

O partido, ainda, se opõe a que o dinheiro dos contribuintes seja "doado" à Ucrânia e afirma que pressionaria pelo levantamento das sanções contra a Rússia - a decisão é feita em nível federal na Alemanha.

Embora seu partido seja conhecido por suas posições pró-Rússia e anti-imigração, além de outras posturas radicais, Siegmund tem evitado fazer declarações extremas e se apresenta como um homem do povo. Mas, embora isso atraia eleitores que, de outra forma, poderiam se sentir repelidos pela AfD, ele também é intransigente, insistindo após a eleição que o partido não vai "abrir mão de nossas posições em prol de coalizões".

Formação do governo ainda é incerta

Apesar de a AfD ter ganhado nas urnas, Siegmund ainda precisa de uma série de fatores para garantir o primeiro governo na história do seu partido, que foi criado em 2013. Isso porque não é a população quem escolhe o representante diretamente, mas sim os partidos que formarão o governo do Estado. Uma vez escolhidos, são eles quem elegem por maioria, quem será o Ministerpräsident, uma espécie de primeiro-ministro do Estado (ou governador).

No cenário atual, a AfD tem a maior delegação no parlamento estadual, mas não tem pessoas suficientes para assegurar a maioria dos votos. O dilema que foi considerado durante todo o tempo de campanha é que os outros partidos também não têm maioria para eleger um representante. E é nesse cenário que coligações improváveis podem acontecer, com o União Democrata-Cristã (CDU, na sigla em alemão) recorrendo a um acordo com Die Linke, o partido de esquerda alemão, ou partidos menores quebrando o chamado cordão sanitário contra a extrema direita e apoiando a AfD no governo.

Com 43,8% dos votos, a AfD conquista 39 cadeiras no parlamento estadual, menos que as 42 necessárias para formar maioria e eleger, sem a necessidade de coalizões, o próximo governador.

Uma colaboração cogitada para a formação do governo é a AfD recebendo apoio da BSW, da ex-diretora do Die Linke (partido de esquerda alemão) Sahra Wagenknecht. A sigla alcançou os 5% mínimos de votos para integrar o parlamento estadual e vai assumir 5 cadeiras no Estado. Na tarde de domingo, a candidata local Claudia Wittig afirmou que mesmo com a diferença entre as ideologias, existem pontos em que os dois partidos convergem.

Na atual configuração, a AfD tem 39 cadeiras e a CDU tem apenas 15, 25 a menos que no governo atual. O Die Linke, o Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD, na sigla em alemão), e o Partido Verde têm 8 assentos cada e o BSW, 5 assentos.

Os deputados devem se apresentar ao governo até 30 dias depois da eleição. É nessa primeira sessão do parlamento, que pode ocorrer, no máximo, até 6 de outubro, que os eleitos começam a formar as alianças para a escolha do novo governador.

*Com informações da Associated Press (AP).

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