Por Tim Reid
WASHINGTON, 30 Set (Reuters) - Os democratas em disputas acirradas para as eleições de meio de mandato nos EUA estão cada vez mais se declarando capitalistas orgulhosos, preocupados com a possibilidade de que as acusações republicanas de socialismo e comunismo possam influenciar eleitores indecisos decisivos em novembro, conforme revelam entrevistas com candidatos e uma análise dos materiais de campanha.
Essa iniciativa representa um momento extraordinário na política dos EUA, onde os democratas — que há muito atuam dentro de um sistema capitalista como um dos dois principais partidos do país — agora se sentem compelidos a enfatizar seu compromisso com uma economia de mercado durante a campanha eleitoral.
Dezenas de democratas em disputas acirradas estão declarando seu apoio ao capitalismo em publicações nas redes sociais, reuniões públicas e aparições na TV, enquanto o presidente Donald Trump e os republicanos intensificam os esforços para retratá-los como radicais perigosos, determinados a transformar os Estados Unidos em um Estado socialista.
Sessenta candidatos democratas em nível nacional, estadual e local, incluindo 10 membros em exercício do Congresso, assinaram um compromisso com um novo grupo, o “Promise to America”, declarando: “somos capitalistas, não socialistas”.
“Esta é a primeira vez, em meus 50 anos na política, que os democratas tiveram que declarar explicitamente seu apoio ao capitalismo”, disse Doug Schoen, um experiente estrategista do partido.
Trump e seus aliados têm destacado as vitórias de membros do movimento de esquerda “Democratic Socialists of America” (DSA) e de candidatos progressistas nas primárias democratas para retratar todo o partido como socialista.
“Vai virar um país comunista se eles ganharem”, disse Trump sobre os democratas em uma convenção republicana em Dallas, em setembro.
Os líderes democratas rejeitam essa caracterização como falsa e destinada a desviar a atenção do alto custo de vida, a principal preocupação dos eleitores.
Embora os democratas sejam favoritos para reconquistar a Câmara dos Deputados dos EUA e também possam retomar o Senado, três estrategistas democratas afirmaram que os ataques republicanos podem prejudicá-los em algumas disputas acirradas.
“Esses ataques podem impactar um número suficiente de eleitores indecisos a ponto de afetar negativamente os democratas na eleição”, disse Frank Lowenstein, ex-funcionário do governo do presidente Barack Obama e agora consultor político.
Os republicanos apontam o DSA e suas políticas como evidência de extremismo dentro do Partido Democrata. O programa do DSA defende posições de extrema-esquerda, como “o fim do capitalismo”, a pressão para abolir a polícia e as prisões e a concessão de anistia aos imigrantes que estão ilegalmente nos EUA — todas posições impopulares entre os eleitores.
FOICE E MARTELO
Amish Shah, médico de pronto-socorro envolvido em uma disputa acirrada na Câmara dos Deputados pelo Arizona, é um alvo improvável para as acusações republicanas de socialismo.
Durante seu mandato na Assembleia Legislativa do Arizona, ele era visto como um dos democratas mais moderados do partido, chegando até mesmo, ocasionalmente, a romper com sua bancada para votar com os republicanos.
No entanto, em setembro, o NRCC (Comitê Nacional Republicano do Congresso dos EUA) enviou correspondências com uma caricatura dele vestindo um terno vermelho e usando um broche com a foice e o martelo — símbolo do comunismo —, alertando sobre sua “agenda socialista radical”.
O ataque tem origem em um evento de 2019 coorganizado por uma filial do DSA, no qual Shah elogiou o senador norte-americano Bernie Sanders, que se autodenomina socialista democrático, e seu apelo por um sistema de saúde universal financiado pelo governo.
Shah, cuja disputa está entre as que podem determinar o controle da Câmara, adotou desde então uma posição mais moderada em relação à saúde, apoiando uma opção de seguro público em conjunto com planos privados.
Os ataques republicanos forçaram o Comitê Democrata de Campanha para o Congresso a defender Shah. Eles veicularam um anúncio na semana passada destacando seu apoio a um projeto de lei contra o tráfico de drogas de 2022, apoiado pelos republicanos.
“Não sou socialista. Acredito no capitalismo como uma ótima ferramenta para promover a prosperidade humana”, disse Shah à Reuters em uma entrevista.
Mike Marinella, porta-voz do Comitê Nacional Republicano do Congresso, disse que os republicanos continuarão a divulgar os históricos de votação dos candidatos democratas e declarações anteriores que os vinculam a políticas apoiadas pelo DSA. O grupo ganhou maior destaque à medida que alguns eleitores democratas ficaram frustrados com a cúpula do partido.
Suzan DelBene, congressista e presidente do Comitê de Campanha Democrata para o Congresso, disse que os republicanos estão recorrendo a ataques ideológicos porque não conseguem defender seu histórico em relação à economia e aos preços ao consumidor.
“Os republicanos já sabem que perderam o apoio do povo norte-americano, e é por isso que estão recorrendo a ataques desesperados que, na verdade, não têm a ver com questões econômicas”, declarou ela em um comunicado.
O DSA, em comunicado, não abordou diretamente os esforços republicanos de usar sua ascensão para retratar os democratas como extremistas, afirmando, em vez disso, que os eleitores são atraídos pelo socialismo democrático devido às frustrações com relação a moradia, saúde e desigualdade econômica.
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