Por Fabricio de Castro
SÃO PAULO, 8 Abr (Reuters) - As taxas dos DIs fecharam a quarta-feira com fortes baixas, superiores a 40 pontos-base em vários vencimentos, e passaram a precificar uma chance, ainda que minoritária, de corte de 50 pontos-base da Selic no fim do mês, apagando a probabilidade de manutenção da taxa básica em 14,75%.
O movimento esteve em sintonia com o recuo dos rendimentos dos Treasuries e a queda firme do petróleo no exterior, após os EUA anunciarem um cessar-fogo de duas semanas com o Irã.
No fim da tarde, a taxa do DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2028 estava em 13,475%, com recuo de 46 pontos-base ante o ajuste de 13,935% da véspera. Na ponta longa da curva a termo, a taxa do DI para janeiro de 2035 marcava 13,64%, com baixa de 29 pontos-base ante 13,926%.
Apesar do forte movimento desta quarta-feira, os investidores ainda não apagaram totalmente da curva os prêmios acrescentados desde o início da guerra. Os DIs para janeiro de 2028 e janeiro de 2035 seguem 86 e 32 pontos-base acima dos níveis vistos antes do conflito, respectivamente.
A sessão desta quarta-feira foi de euforia entre os investidores. Isso porque na noite de terça-feira, menos de duas horas antes do fim do prazo final para um acordo, o presidente dos EUA, Donald Trump, aceitou um cessar-fogo de duas semanas com o Irã, sujeito à suspensão do bloqueio de transporte de petróleo e gás pelo Estreito de Ormuz.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, disse em um comunicado que Teerã vai interromper os contra-ataques e fornecer uma passagem segura por Ormuz. Uma autoridade sênior iraniana disse à Reuters que a passagem pode ser aberta na quinta ou na sexta-feira, antes das negociações de paz, se os países concordarem com uma estrutura para o cessar-fogo.
A expectativa de que o transporte de petróleo e gás possa ser normalizado fez o petróleo tipo Brent despencar, aproximando-se dos US$90 o barril no melhor momento do dia, o que reduziu os temores quanto aos impactos inflacionários da guerra ao redor do mundo.
Ao mesmo tempo, investidores foram em busca de ativos de maior risco, como ações, moedas e títulos de países emergentes.
Na renda fixa brasileira, isso se traduziu na forte retirada de prêmios na curva de DIs, em especial nos contratos para janeiro de 2028 e janeiro de 2029, dois dos mais líquidos.
Com o movimento, a curva também apagou a probabilidade de o Banco Central manter a Selic em 14,75% em sua reunião de política monetária do fim do mês, passando a refletir alguma chance de corte maior da taxa básica.
Conforme o estrategista-chefe e sócio da EPS Investimentos, Luciano Rostagno, no fim da tarde a curva precificava 76% de probabilidade de corte de 25 pontos-base da Selic, contra 24% de chance de redução de 50 pontos-base. Na véspera, antes do acordo entre EUA e Irã, a curva precificava 92% de probabilidade de corte de 25 pontos-base, contra 8% de chance de manutenção da taxa em 14,75%.
Durante evento promovido pelo Bradesco BBI em São Paulo, o diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, fez menção ao forte movimento de retirada de prêmios da curva brasileira, mas disse não estar convencido de que o choque trazido pela guerra se resolveu.
"Pareceu fácil ao Irã fechar o Estreito de Ormuz", disse David. "Não tenho capacidade de dizer que isso está resolvido", acrescentou, repetindo em diversos momentos que o nível de incerteza segue elevado.
Ao tratar da política monetária, David afirmou que o nível da taxa Selic tem hoje “mais gordura” do que tinha há seis meses, mas indicou que a guerra no Oriente Médio atua no sentido contrário a essa folga nos juros, ao promover um choque relevante nos preços.
"O nível de juros hoje tem mais gordura do que tinha seis meses atrás. Obviamente que esse evento do conflito vai do outro lado, porque ele está dando um choque de preços relevante que tem chances reais de ter efeitos de segunda ordem", afirmou, reforçando que a autarquia não pode "baixar a guarda".
No exterior, o acordo de cessar-fogo também promovia uma redução firme dos prêmios na curva norte-americana. Às 16h50, o rendimento do Treasury de dez anos --referência global para decisões de investimento-- caía 6 pontos-base, a 4,285%.
Veja como estavam as taxas dos principais contratos de DI no fim da tarde desta quarta-feira:
Mês Ticker Taxa Ajuste Variação
(% anterior (p.p.)
a.a.) (% a.a.)
JAN/27 13,96 14,256 -0,296
JAN/28 13,475 13,935 -0,46
JAN/29 13,385 13,823 -0,438
JAN/30 13,45 13,852 -0,402
JAN/31 13,525 13,882 -0,357
JAN/35 13,64 13,926 -0,286
(Edição de Isabel Versiani)



