VENEZA, 6 Set (Reuters) - A escassez de mulheres concorrendo ao prêmio principal do Festival de Cinema de Veneza reflete um problema estrutural na indústria cinematográfica, afirmou a diretora dinamarquesa May el-Toukhy no domingo, ao apresentar seu drama realista “Woman Unknown”.
El-Toukhy é a única mulher a dirigir um filme de ficção entre os 21 concorrentes ao Leão de Ouro. Apenas um outro filme em competição, um documentário, tem uma codiretora, o que alimenta o debate sobre a representação feminina no cinema.
“É um problema estrutural, e é um problema estrutural que venho enfrentando ao longo de toda a minha carreira”, disse a cineasta dinamarquesa-egípcia em uma coletiva de imprensa antes da estreia de seu mais recente filme.
“Foi muito, muito difícil concluir meu primeiro filme depois de me formar na faculdade de cinema. Acho que levei seis ou sete anos, enquanto meus pares homens foram muito mais rápidos do que eu.”
O diretor do festival, Alberto Barbera, defendeu a programação deste ano, observando que as mulheres dirigiram apenas 24% dos filmes inscritos — uma queda em relação aos 30% do ano anterior — e afirmando que as decisões de seleção foram baseadas na qualidade artística.
El-Toukhy disse que garantir financiamento continua sendo mais difícil para diretoras, afetando tudo, desde orçamentos até oportunidades de elenco e, em última instância, as chances de um filme chegar aos principais festivais.
'A INVISIBILIDADE DAS MULHERES'
Ambientado logo após a Segunda Guerra Mundial, “Woman Unknown” acompanha Marie, uma empregada doméstica dinamarquesa que se prepara para se casar com seu rico empregador quando um relacionamento passado com um soldado alemão ameaça destruir seu futuro.
O filme se desenrola tendo como pano de fundo uma Dinamarca recém-libertada, onde mulheres acusadas de confraternizar com as forças de ocupação alemãs eram frequentemente submetidas a humilhação pública e à justiça popular.
El-Toukhy disse que os temas da história ecoavam seus comentários sobre representação.
“Meu filme é sobre a invisibilidade das mulheres”, disse ela. “É sobre ser objetificada, por um lado, e, por outro, ser invisível e sem voz.”
Embora grata pela atenção gerada por sua presença na competição, ela disse que preferiria ter mais cineastas mulheres ao seu lado.
“É claro que adoraria ter mais pares mulheres na competição ao meu lado”, disse ela. “Depois do MeToo, todas nós ficamos realmente conscientes desse desequilíbrio de gênero, e algo aconteceu ao longo dos últimos dois anos que nos fez, de certa forma, voltar ao que costumava ser.”
A atriz Mathilde Arcel, que interpreta Marie, disse que o filme trouxe à tona a história das mulheres que carregaram o estigma de relacionamentos durante a guerra por décadas.
“Há mulheres que nem mesmo contaram às suas famílias que passaram por essas coisas”, disse ela. “Mesmo hoje, quando a Dinamarca comemora o Dia da Libertação, algumas ainda têm medo e ainda sentem vergonha.”
(Reportagem de Kristian Brunse e Crispian Balmer)



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