O vazamento de gás estireno, iniciado por volta das 17h de quarta-feira (15), na empresa Innova-Videolar, causou mal-estar em dezenas de pessoas, fato que continuou na quinta-feira (16) e teve repercussão na imprensa nacional.
O acidente foi motivo de cancelamento de trabalho em outras fábricas, suspensão de aulas em escolas e de relatos de dezenas de leitores do Portal do Holanda, tanto de trabalhadores das indústrias quanto de moradores das áreas atingidas pelo forte cheiro de tinta, causado pelo gás.
Pouco mais de uma hora após o registro do vazamento, o Portal do Holanda noticiou o fato,https://www.portaldoholanda.com.br/amazonas/vazamento-de-produto-quimico-assusta-distrito-industrial-e-forca-evacuacao-de-empresase trouxe repercussões e ações de vários órgãos que foram mobilizados pelo acontecimento:https://www.portaldoholanda.com.br/amazonas/manaus-entra-em-estado-de-alerta-e-gabinete-de-crise-e-instalado-apos-vazamento-de-gas-no-distrito-industrial
Mas dados importantes escaparam da apuração apresentada em vários textos pelo Portal do Holanda, abordando diferentes aspectos do acidente. Vejamos alguns:
Durante muito tempo, o Distrito Industrial de Manaus sempre foi conhecido por ter indústrias de montagem de máquinas e equipamentos eletroeletrônicos. Mas houve diversificação das indústrias e o polo químico, pelas suas características, deve ganhar mais atenção e acompanhamento da cobertura jornalística do portal.
Por exemplo, quantas indústrias do Polo Químico existem no Distrito Industrial, no qual se insere a Innova?
Informações obtidas no site da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), mostram que o Distrito Industrial tem atualmente cerca de 550 empresas instaladas. Entre essas indústrias estão as do polo químico, cujo foco é a produção de bens intermediários, como concentrados para refrigerantes, produtos de limpeza, termoplásticos e gases industriais.
Elas representam o terceiro maior em representatividade no faturamento do Polo Industrial de Manaus (PIM), com cerca de 11% do faturamento total do modelo.
Este não é o primeiro acidente registrado nesse polo. Em 2014, houve duas explosões na fábrica de gás White Martins, quando era feita a transferência de nitrogênio de um tanque fixo para um outro acoplado em caminhão. Cinco trabalhadores ficaram feridos, um dos quais foi internado e passou vários dias na unidade de saúde.
Como pontuou o editorial do Portal do Holanda no dia 16, “o episódio revelou como um incidente localizado no principal centro produtivo do Amazonas pode rapidamente alcançar a saúde pública, a mobilidade, o comércio e a rotina urbana”.
E mais, ainda que tenha havido uma resposta emergencial eficiente, que mobilizou bombeiros, órgãos municipais, unidades de saúde e empresas da região, é necessário que após o controle do vazamento, as causas sejam reveladas e os eventuais impactos ambientais e sanitários sejam tornados públicos, assim como medidas destinadas a impedir que haja outra ocorrência semelhante.
Outro ponto fundamental e necessário que faltou ouvir os moradores das áreas atingidas, perguntar o que sentiram, como sentiram e se sabiam dos riscos trazidos pela fumaça e que providências deveriam tomar, por exemplo, para proteger áreas expostas como fruteiras nos quintais ou piscinas que possam ter sido atingidas pela fumaça. E com as crianças e idosos, há riscos maiores?
Como havia desencontro de informações sobre procedimentos a serem tomados pela população moradora da área atingida, certamente muita gente ficou sem saber qual o melhor procedimento a tomar.
Será que os resíduos da fumaça ficaram impregnados nesses locais? Podem causar algum dano à saúde a curto, médio ou longo prazo? Um especialista poderia responder bem a essas e outras perguntas que ficaram silenciadas.
Nem mesmo os relatos postados nas redes sociais do Portal do Holanda pelos moradores da zona Sul, a mais atingida pela fumaça, foram usados nas reportagens postadas.
A nota oficial da empresa foi postada com destaque, na qual afirmou ter havido elevação anormal de temperatura em um dos tanques de armazenamento de Monômero de Estireno. Com isso, o líquido sofreu elevação anormal de temperatura, liberando vapores de forma controlada pelos próprios dispositivos de segurança do equipamento.
Embora a Innova-Videolar tenha garantido o controle da situação, vários moradores das áreas atingidas pela fumaça expelida relataram, nas redes sociais, continuar a sentir o forte odor de tinta ainda na sexta-feira (17). Quanto tempo isso deve permanecer? Que cuidados devem ser tomados nessa situação? São perguntas sem resposta até aqui.
Cabe também ao Portal do Holanda cobrar os resultados da investigação aberta pelo Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM). O órgão anunciou, que abriu, por iniciativa própria, um procedimento para investigar as causas do vazamento, sob a responsabilidade do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça Especializadas na Defesa do Meio Ambiente, Patrimônio Histórico e Urbanismo (CAO-MAPH-URB).
O impacto do acidente levou alguns leitores a lembrar de Chernobyl, que foi um acidente nuclear catastrófico ocorrido em abril de 1986 no reator nuclear nº 4 da Usina Nuclear de Chernobyl, no norte da Ucrânia Soviética. Exageros à parte, o leitor do Portal do Holanda, Pedro Ribeiro Netto, foi sensato ao afirmar ser impossível comparar os dois acidentes.
No entanto, para ele, o caso serve de alerta diante dos riscos causados pelas atividades dessas empresas e a importância da fiscalização, já que Manaus enfrenta desafios relacionados à poluição química e à necessidade de fortalecer a fiscalização ambiental.
No mais, diante do número de indústrias químicas atualmente no PIM, estimadas em 40, é importante informar ao leitor do Portal do Holanda como é feita a fiscalização dessas empresas de forma a garantir que fatos como esse sejam eventos raros ou, se ocorrerem, frutos de acidentes e não de ausência de ações e condutas recomendadas pela legislação.
Ombudsman
Ana Celia Ossame é amazonense de Manaus, Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) (2015) e graduada em Comunicação Social - Jornalismo pela Ufam (1985). Tem Especialização em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em 1997 e experiência na área de Comunicação, com ênfase em Jornalismo e Editoração e Assessoria de Imprensa. Trabalhou nos jornais amazonenses A Notícia, Jornal do Comércio e A Crítica, onde elaborou matérias sobre Educação, Saúde, Meio Ambiente e do Cotidiano. Durante mais de uma década, foi responsável pela edição e produção de uma página dedicada à Educação no Jornal A Crítica. Foi Assessora de Imprensa do Conselho Regional de Medicina do Estado do Amazonas (CRM-AM), Câmara Municipal de Manaus, Agência de Comunicação do Governo do Estado, Secretaria Estadual de Assistência Social (SEAS), Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SEMASDH), Secretaria Municipal de Juventude, Esporte e Lazer (Semjel) e da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM). É detentora de prêmios jornalísticos como 6º. Prêmio Embratel de Jornalismo (2004), Grande Prêmio Ayrton Senna (2000), Governo do Estado do Amazonas (1997) e Sociedade Brasileira de Cardiologia. Em 1997, foi premiada como Jornalista Amiga da Criança (JAC) pela Agência de Notícias pelos Direitos da Infância (ANDI), vinculada à Unesco. É autora do Livro de Poesia “Imaginei Assim”, publicado em 1986, dos livros Infantis “O Planeta Azul” (2014) e Os Sapatos da Formiga (2024), publicados pela Editora Valer, este último contemplado pelo Prêmio Frauta de Barro. E-mail: [email protected].
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