A polarização entre os defensores do asfaltamento da BR 319, sob o argumento do acesso do Amazonas ao resto do País e dos que se contrapõem afirmando que a obra vai causar o aumento implacável do desmatamento, precisa ser mediada. Só assim será possível entender os motivos reais que vêm marcando, judicialmente, as decisões sobre essa questão.
O Portal, assim como a imprensa local e até nacional, tem reproduzido as mesmas informações e argumentos que já vêm sendo repetidos há anos. Mas, ao que parece, falta ao leitor uma visão mais ampla, atual e até mesmo local dos efeitos dessa obra para as comunidades que serão afetadas diretamente com o asfaltamento daquele trecho da rodovia.
Na última terça-feira (28), por determinação da Justiça Federal do Amazonas, houve a suspensão, por 70 dias, dos editais de contratação para o asfaltamento de um trecho da BR-319, a pedido do Observatório do Clima (OC).
Os argumentos da Organização Social, que reúne mais de 130 outras organizações não-governamentais (ONGs) que lutam “pela construção de um Brasil descarbonizado, igualitário, próspero e sustentável”, deve ter consistência, pois foi acatado pela Justiça Federal. E tem sido assim sempre.
Quais são esses argumentos usados contra o tão esperado asfaltamento, que demandam novas providências para a concessão do licenciamento da obra? A pergunta do leitor ainda está sem resposta.
A medida atende a um pedido do Observatório do Clima (OC) questionando a falta de licenciamentos e impõe novas exigências ao governo sobre o processo de licenciamento ambiental da obra.
Que a rodovia corta uma área sensível da Amazônia, ambos os lados confirmam, mas quem mora nela já foi ouvido, perguntado sobre essa obra, o que vai resultar dela para a vida deles? A imprensa, em geral não mostra essa voz, mas ela existe e já foi dada.
A grande preocupação é que com a retomada das obras da BR-319 haja aumento incontrolável do desmatamento e a grilagem de terras próximo da rodovia.
Ao todo, a BR-319 com seus 885 quilômetros passa por 13 municípios que serão afetados com a abertura de ramais e estradas conectando cidades e propriedades à via principal, o que significa desmatamento acelerado, que afetará a vida dessas comunidades positiva e negativamente.
Nesse caminho que liga Manaus a Porto Velho existem 28 unidades de conservação e 69 comunidades indígenas, entre as quais uma de povos isolados, que não têm contato com os homens urbanos.
Há levantamentos mostrando que a rodovia conta com 476 quilômetros asfaltados, em trechos não contínuos e por conta disso, as comunidades da área já percebem os impactos do empreendimento, com aparecimento de grileiros atuando fortemente na área.
Um problema grave e atual é o aterramento de 57 igarapés na área afetada pela rodovia, conforme estudo apresentado pelo biólogo Lucas Ferrante, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
Um dos efeitos desses aterramentos é o prejuízo ao fluxo das águas em rios usados para transporte, como o Madeira, conforme destacou o biólogo Lucas Ferrante. Segundo ele, a longo prazo, a devastação poderá gerar ondas de calor em Manaus, redução do volume de água nos rios da Amazônia e mudanças no regime das chuvas no país, especialmente nas regiões Sul e Sudeste.https://www.brasildefato.com.br/2024/09/30/pavimentacao-da-br-319-na-amazonia-afeta-areas-preservadas-e-pode-agravar-crise-climatica-alertam-pesquisadores/
Ou seja, os danos que vierem a existir não serão localizados. Hoje, o sistema Cantereira, que é o principal reservatório de São Paulo, está com o nível mais baixo dos últimos 10 anos.https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/05/nivel-do-sistema-cantareira-continua-baixando-na-grande-sao-paulo.shtml
Com esses dados circulando de forma restrita, a imprensa amazonense deveria abrir canais para ouvir professores das universidades federal, estadual e pesquisadores dos institutos sediados na Amazônia e também das comunidades locais para debater e aprofundar a importância e os riscos dessa obra, fundamental para o acesso do Estado aos demais do país.
E ir além, mostrando outras soluções que possam atender tanto os interesses do Amazonas, quanto os das comunidades rurais, ribeirinhas e indígenas que vivem secularmente naquela área, assim como da preservação do meio ambiente local e nacional.
E aí se poderia tomar uma decisão mais apropriada para a necessária interligação do Estado ao país por via terrestre, encerrando um embate que já dura décadas e demonstra ter fôlego para continuar sem perspectiva de ponto final.
Ombudsman
Ana Celia Ossame é amazonense de Manaus, Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) (2015) e graduada em Comunicação Social - Jornalismo pela Ufam (1985). Tem Especialização em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em 1997 e experiência na área de Comunicação, com ênfase em Jornalismo e Editoração e Assessoria de Imprensa. Trabalhou nos jornais amazonenses A Notícia, Jornal do Comércio e A Crítica, onde elaborou matérias sobre Educação, Saúde, Meio Ambiente e do Cotidiano. Durante mais de uma década, foi responsável pela edição e produção de uma página dedicada à Educação no Jornal A Crítica. Foi Assessora de Imprensa do Conselho Regional de Medicina do Estado do Amazonas (CRM-AM), Câmara Municipal de Manaus, Agência de Comunicação do Governo do Estado, Secretaria Estadual de Assistência Social (SEAS), Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SEMASDH), Secretaria Municipal de Juventude, Esporte e Lazer (Semjel) e da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM). É detentora de prêmios jornalísticos como 6º. Prêmio Embratel de Jornalismo (2004), Grande Prêmio Ayrton Senna (2000), Governo do Estado do Amazonas (1997) e Sociedade Brasileira de Cardiologia. Em 1997, foi premiada como Jornalista Amiga da Criança (JAC) pela Agência de Notícias pelos Direitos da Infância (ANDI), vinculada à Unesco. É autora do Livro de Poesia “Imaginei Assim”, publicado em 1986, dos livros Infantis “O Planeta Azul” (2014) e Os Sapatos da Formiga (2024), publicados pela Editora Valer, este último contemplado pelo Prêmio Frauta de Barro. E-mail: [email protected].
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