Podia ser a reunião de um partido em defesa da terceira via na eleição presidencial que se avizinha. Não só pelo objetivo do evento, mas também pela plateia que compareceu ao Cinépolis, no Shopping JK, na zona sul de São Paulo. Mas se tratava apenas da pré-estreia de 963 Dias, o documentário sobre a presidência de Michel Temer (MDB), dirigido pelo cineasta Bruno Barreto e exibido nesta sexta-feira, dia 26. Ao término da sessão, gritos de "Volta Temer" em meio aos aplausos trouxeram um pouco dos palanques para a sala de cinema.
Temer entrou na sala às 10 horas, quando quase todos os lugares da plateia estavam ocupados. Caminhou lentamente entre cumprimentos e sorrisos. Ia experimentar uma sensação estranha, a de ser o astro de um filme que seria exibido no cinema. "Quando criança, eu comprava a revista Cinelândia. Depois, me tornei mais aficionado às leituras. E, atualmente, vejo muitos documentários", contou o ex-presidente.
Nem mesmo a chegada de Alexandre de Moraes foi capaz de roubar a cena. Talvez muitos não se recordem que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) ocupou uma pasta, o da Justiça e Cidadania, no primeiro ministério do ex-presidente, que o nomeou, em 2017, para o STF. Moraes sentou-se ao lado de Temer e assistiu ali o filme de uma hora e 45 minutos de duração. Quando os créditos do documentário começaram a passar, gritos de "Volta Temer", surgiram na plateia. "É, às vezes, falam isso para mim", afirmou Temer quando saía da sala.
Composta por empresários, artistas, jornalistas, políticos, familiares, juristas, amigos e admiradores do ex-presidente, ela reunia figuras importantes do PSD, como o presidente da legenda, Gilberto Kassab, e seu pré-candidato à presidência, Ronaldo Caiado, bem como o governador gaúcho, Eduardo Leite. Também estavam na sala quase todo antigo ministério de Temer, como o emedebista Moreira Franco e Carlos Marum bem como Antônio Imbassahy e Torquato Jardim e os ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia e do STF, Nelson Jobim, quase todos entrevistados por Barreto.
Logo depois da sessão, a reportagem abordou Marum. Advogado, ele mantém contato próximo com o ex-presidente até por razões profissionais. "Temer representa lucidez e pacificação. Ele tem de ser nosso candidato, do MDB, à Presidência. Temos um presidente, o filho de um ex-presidente e podemos ter outro ex-presidente candidato. Sou entusiasta de sua candidatura e vou exercer meu direito de incomodar ele (Temer) nesse sentido", afirmou.
Marum acredita que Temer pode ter nesta eleição o papel que Simone Tebet desempenhou em 2022, de representar ao centro. "Até pela lucidez que está demonstrando. O Baleia (Rossi, presidente do partido) sabe disso. O Temer tem de cumprir esse papel, que é do MDB na política nacional", disse. Há dez dias, o ex-presidente divulgou um documento, o Estrada para o Futuro - 2026, um verdadeiro programa de governo escrito com a propostas elaboradas por um time que mais parecia um ministério, que reunia Adriano Pires, Blairo Maggi, Gabriel Chalita, Marcos Lisboa, José Pastore, Nelson Jobim, Mara Gabrilli, Raul Cutait, Rubens Barbosa, Júlio Medaglia, Denis Rosenfeld e o coronel José Vicente. "Oferecemos essas propostas para todos os candidatos", afirmou Temer.
A ideia do documentário nasceu há três anos. Era um projeto de Bruno Barreto, que se apaixonara pela ideia de mostrar a complexidade do personagem e de seu governo, o último antes da polarização que tomou conta do País, com a eleição de Jair Bolsonaro para suceder Temer, em 2018. Talvez por isso dois entrevistados importantes do documentário que foram convidados para a pré-estreia não compareceram ali: o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Mas apesar dos gritos e da opinião de seus antigos colaboradores, o ex-presidente afirmou: "Não tenho pretensões de voltar (à Presidência). Fiz o documento para todos os candidatos, pois, se pudermos colaborar com a experiência do passado para que o País saia da radicalização, eu vou fazer isso", afirmou o ex-presidente, que, sorridente, demonstrava sua satisfação com o documentário.
"Ele (Bruno Barreto) exagerou sem ser chapa branca", disse antes de afirmar que o documentário foi feito sem dinheiro público. "Fui muito impopular como presidente e agora vou ser um ex-presidente popularíssimo." Temer acredita que 963 Dias conta "a verdade dos fatos", mas não teve como objetivo fazer uma retratação de sua história. "Reconhece que fizemos um governo de reformas e nesse sentido o documentário vai ser uma recuperação histórica", sentenciou o ex-presidente. Por enquanto, essa seria a única ambição de Temer com o documentário que deve estrear em setembro em dez capitais do País.



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