O deputado Cezinha de Madureira (PL-SP), alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) sobre tráfico de influência em tribunais superiores, é um dos principais acusados de uma investigação que está parada há mais de um ano no Supremo Tribunal Federal (STF). Trata-se de uma apuração sobre desvio de recursos de emendas parlamentares usadas para bancar eventos da Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo promovidos desde a pandemia de Covid até 2024.
A acusação é sustentada, segundo o Ministério Público de São Paulo, por áudios, mensagens e depoimentos obtidos por meio de quebras de sigilos e uma ação controlada autorizada pela Justiça. Os indícios do desvio das emendas passaram pela Procuradoria Geral da República (PGR) e estão paradas no STF desde agosto de 2025. Neste período, nenhuma operação foi realizada para aprofundar as investigações e nenhum depoimento foi tomado.
A quebra autorizada das senhas de celulares de empresários envolvidos com os eventos patrocinados com as emendas garantiu aos promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao crime Organizado (Gaeco) provas da participação de dezenas de vereadores e ex-vereadores de São Paulo no desvio de recursos. Todos negam as acusações.
A perícia só conseguiu acessar os dados dos telefones em 2025. Entre as mensagens e áudios acessados, algumas indicavam o envolvimento de Cezinha, que encaminhou à Secretaria Municipal de Cultura uma emenda de R$ 4 milhões. Por ser deputado federal, o Ministério Público de São Paulo teve que enviar o caso ao Supremo.
Sete meses depois, em 5 de março de 2026, os promotores paulistas solicitaram ao STF informações sobre o andamento do caso. A resposta nunca veio, apesar do sistema do Supremo indicar que ela havia sido proferida, mas mantida sob sigilo. No último dia 18 de agosto, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, arquivou o pedido do Gaeco, sem que os promotores fossem informados que, no dia 19 de dezembro de 2025, o caso fora distribuído para o ministro Nunes Marques.
O Estadão procurou três dezenas de envolvidos no caso, entre políticos acusados de apropriação de verbas, empresários que pagariam as propinas, além de testemunhas. Nenhum dos citados pelo Gaeco foi alvo de busca ou intimado a depor pela PGR ou pela PF.
Após a reportagem procurar os envolvidos, um deles entrou com um pedido de informações no gabinete de Nunes Marques, no dia 3 de setembro. Seis dias depois, a reportagem procurou a presidência do STF e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, para saber as razões de o caso seguir travado, mas não obteve respostas.
O gabinete de Nunes Marques negou paralisia e informou que o caso estava com a PGR.
Esquema garantia até 35% do valor das emendas para os autores dos repasses
De acordo com as investigações do Gaeco, às quais o Estadão teve acesso exclusivo, de 20% a 35% dos recursos repassados por vereadores para a Secretaria de Cultura e enviados a empresas de shows e de espetáculos voltavam para os parlamentares com a suposta anuência do comando da Prefeitura de São Paulo. O esquema envolveria ainda cachês superfaturados.
Na capital paulista, vereadores indicam empresas na área da Cultura e obras para as quais gostariam que os recursos de suas emendas fossem destinados, mas quem decide pagar as emendas é a Prefeitura. Ao contrário do plano federal, na cidade não há emendas impositivas. Cada vereador tem à sua disposição R$ 2,5 milhões por semestre para emendas.
As apurações do Gaeco envolvem conversas de empresários, assessores parlamentares, secretários, chefes de gabinete, vereadores e até do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Os promotores começaram apurando "eventuais crimes de peculato, corrupção passiva, lavagem de recursos e de organização criminosa", dentro da Câmara Municipal de São Paulo. O Gaeco constatou, por exemplo, que, no ano de 2020, auge da pandemia de covid-19, a Secretaria Municipal de Cultura foi o órgão que mais recebeu emendas parlamentares dentre toda a administração municipal, com o total de R$ 50,5 milhões, "superando o montante recebido pela Secretaria da Saúde, de R$ 50,2 milhões no mesmo período".
A lista de investigados no Executivo inclui o prefeito Nunes, o secretário da Casa Civil, Paulo Frange (MDB), o secretário de Habitação, Diogo Batista Soares, e dois ex-secretários municipais (Cultura e Turismo). Nunes e os secretários negam as acusações.
"O prefeito Ricardo Nunes jamais recebeu, direta ou indiretamente, qualquer valor proveniente de contratos, convênios, emendas parlamentares ou de entidades que mantenham relação com o poder público, tampouco possui ou possuiu participação societária, formal ou oculta, nas empresas e instituições mencionadas", afirmou a assessoria, em nota enviada ao jornal. (leia mais abaixo)
Estão ainda na condição de investigados na representação dos promotores seis vereadores da atual legislatura - Marcelo Messias (MDB), João Jorge (MDB), Ely Teruel (MDB), Gilberto Nascimento Junior (PL), Rubinho Nunes (União), e Eliseu Gabriel (PSB), bem como seis ex-vereadores: Milton Leite (União), Arselino Tatto (PT), Zé Turin (PRD), Rinaldi Digilio (União), Mário Covas Neto (PSDB) e Noemi Nonato (Republicanos).
Procurados, os vereadores Messias, João Jorge, Rubinho, Nascimento Junior e Gabriel negaram participação nas fraudes. "Jamais cobrei percentual, vantagem ou qualquer contrapartida por emenda", disse João Jorge.
Messias afirmou desconhecer o teor da investigação. "Se existir (gravações) nos termos que a reportagem coloca são absolutamente inverídicas." Rubinho relacionou o caso à campanha eleitoral: "Estão querendo requentar um assunto resolvido, provavelmente, porque minha campanha para deputado federal está incomodando os opositores."
Já Nascimento Junior afirmou que "toda a tramitação, execução e fiscalização das emendas parlamentares seguem estritamente a legislação vigente e são de responsabilidade do Executivo Municipal". Por fim, Gabriel disse desconhecer a acusação. Também negaram envolvimento Leite, Tatto e Covas Netto. Leite disse estranhar acusações como essas surgirem em períodos eleitorais. Tatto afirmou nunca ter tratado de emendas. Covas Neto disse que os gastos de suas emendas estão todos documentados. "Infelizmente tem gente que acha que todos são iguais, que podem fazer algo porque todos fazem. Se enganam." Ely Teruel não respondeu. Digilio, Zé Turin e Noemi não foram localizados.
Outros três vereadores - Rute Costa (PL), André Santos (Republicanos) e Milton Ferreira (Podemos) e três ex-vereadores - Celso Jatene (PL), Eduardo Tuma (atualmente conselheiro do Tribunal de Contas do Município) e Camilo Cristóforo (Podemos) - são citados pelos promotores em razão de terem abastecido entidades suspeitas de participar do esquema com recursos de suas emendas. A assessoria de Ferreira negou qualquer irregularidade, assim como a de Santos e a de Rute. Jatene se disse surpreso e inocente. Tuma não respondeu. Cristóforo afirmou ser alvo de campanha de difamação.
Por fim, outros dois ex-vereadores - Gilson Barreto (MDB) e Quito Formiga (MDB) - são investigados no capítulo que trata da máfia das creches, em que parte dos acusados por desvios de recursos da Cultura também é citada. Barreto disse que nunca teve negócios e relações pessoais ou tratou do que quer que fosse ligado às creches. Formiga não foi localizado.
Investigação começou em março de 2021
A investigação do Gaeco começou em 17 de março de 2021, quando o vereador Fernando Holiday, então no União Brasil e atualmente no PL, procurou os promotores para denunciar que o ex-vereador Zé Turin lhe fizera uma oferta para que ele participasse do esquema. A Justiça autorizou gravações ambientais em uma ação controlada e, depois, em 2023, quebras de sigilos telemáticos.
Estas atingiram dois personagens centrais: os empresários Antônio Cerqueira Júnior e Adenílson Dias dos Santos, o Doninha. Eles seriam donos ou operadores de empresas e de ONGs usadas no esquema. Ao todo, dezesseis delas receberam R$ 26,1 milhões de 16 vereadores entre 2017 e 2020. Outras sete foram listadas por receberem recursos entre 2021 e 2024, quando Nunes já era prefeito - todas as empresas tiveram seus sigilos bancário e fiscal quebrados.
A reportagem procurou os empresários. Cerqueira Junior não respondeu ao pedido de entrevista. Doninha negou qualquer irregularidade nos contratos.
O poder dos empresários no esquema seria tanto, segundo o Gaeco, que eles remetiam aos gabinetes dos vereadores formulários já preenchidos, restando ao parlamentar alterar o nome do vereador e o valor da verba, para formalizar a destinação da emenda para empresas previamente definidas.
Em decorrência do enorme volume de dados reunidos pelo Gaeco, tudo foi enviado ao Laboratório de Computação Forense do MPE. O relatório com a análise do material só ficou pronto em 2025.
Foi por meio de conversas registradas em mensagens de texto e áudio que os promotores afirmaram ter confirmado as tratativas das negociações sobre a destinação das emendas, "com um percentual do valor retornando para o parlamentar remetente, conforme a denúncia inicial de Holiday".
Exemplo disso seria um diálogo entre Cerqueira Junior e Doninha: "Foi identificado um momento em que Doninha disse que iria tentar isso com o vereador João Jorge, mas reclamou que, com tal vereador 'era roça de 25%'." Segundo os promotores, Doninha estava falando da porcentagem que o vereador cobraria por emenda.
Na sequência, segundo o Gaeco, Cerqueira Junior respondeu que os "vereadores dele eram piores", que com eles "era de 30% a 35%", e que ainda "o Grande Chefe ganhava em cima de todo mundo". E completou dizendo que não era "toda vez que o Grande Chefe ganhava em cima", mas que, quando ele pedia, "não tinha como negar", pois não seria "doido de negar algo" para quem fazia "o negócio acontecer".
De acordo com os promotores, o contexto dos diálogos, permite "inferir que Cerqueira Junior estava falando da porcentagem que vereadores e seus parceiros cobravam de contrapartida pela destinação dos recursos".
E concluíram: "É certo que, durante toda a análise, se identificou que Cerqueira Junior se referia como 'Chefe', 'Chefia' e '01' ao ex-vereador e atual prefeito Ricardo Nunes, a quem classificou também como seu 'amigo e parceiro'". Ao todo, os promotores afirmaram que as empresas investigadas receberam de Nunes, então vereador, "a quantia de R$ 5.139.020,00 durante os anos de 2017 a 2020".
O Gaeco baseia sua conclusão de que Nunes seria o 'Grande Líder' nas conversas de Cerqueira Junior com o prefeito. As mensagens dele para Nunes demonstrariam a existência de uma relação do prefeito com um dos chefes do esquema. É numa dessas conversas que eles trataram da destinação de recursos da emenda de Cezinha.
"(Cerqueira) Junior disse a Ricardo Nunes que o amigo dele, Cezinha de Madureira, conversaria com o prefeito", dizem os promotores. Segundo eles, o empresário disse a Nunes que "já estariam todos alinhados quanto ao assunto". "Nunes respondeu com um 'ok'.", escreveram os promotores.
Vinte dias depois, Cerqueira Júnior teria voltado a conversar com Nunes sobre os recursos da emenda do deputado. Disse que o parlamentar ia procurar o prefeito para "viabilizar eventos". "Nunes respondeu, novamente, apenas com um 'ok'."
As supostas relações de Cerqueira Junior com Nunes aparecem em outros momentos da apuração. Os promotores relataram à PGR que o empresário elogiou o prefeito pela escolha de Aline Torres para ser a titular da pasta da Cultura, dizendo que ela foi um "golaço", que o "grupo deles", enfim, teria alguém no comando da secretaria.
Procurada, Aline Torres disse que não sabe quem foram todos os vereadores que solicitaram emendas à pasta no período alvo da investigação do Ministério Público.
"Não tenho informações desse processo do MP, também não tenho de cabeça o nome de todos os parlamentares que solicitavam emenda naquela época."
Alguns dias depois, Junior e Nunes passaram a conversar, segundo o Gaeco, sobre a possibilidade de se fazer eventos presenciais durante a pandemia de Covid. "Junior chamou Ricardo de 'chefia' e perguntou se ele achava que, em novembro daquele ano, já teriam eventos presenciais." Foi quando Nunes orientou o empresário a fazer o Dia Nacional da Juventude, evento católico, no mesmo local da Marcha com Jesus, da Igreja Renascer.
O empresário, então, contou que o show de um padre havia sido feito com o dinheiro da emenda de Cezinha - os R$ 4 milhões. Os promotores escreveram: "Nunes demonstrou saber do que se tratava, dizendo inclusive que Cezinha de Madureira havia lhe pedido algo, que no contexto pode se referir ao pedido para a realização do evento ou mesmo ao pedido para a liberação da emenda".
Leia a íntegra da nota da Prefeitura
A Prefeitura de São Paulo informa que o prefeito Ricardo Nunes e os secretários citados negam e repudiam as denúncias trazidas pelo jornal "O Estado de S. Paulo". O prefeito Ricardo Nunes jamais recebeu, direta ou indiretamente, qualquer valor proveniente de contratos, convênios, emendas parlamentares ou de entidades que mantenham relação com o poder público, tampouco possui ou possuiu participação societária, formal ou oculta, nas empresas e instituições mencionadas pela reportagem. As afirmações em sentido contrário são falsas e, portanto, é irresponsável qualquer reportagem que venha difundir calúnias e macular o nome de pessoas inocentes.
A destinação de emendas parlamentares está sujeita aos procedimentos legais, técnicos e de controle previstos na legislação.
Em relação às acusações atribuídas ao ex-vereador Zé Turin, o prefeito nega de forma categórica qualquer recebimento de valores relacionado a creches ou a quaisquer processos supostamente ilícitos. O prefeito reitera que campanhas difamatórias serão respondidas em ação criminal.
A Prefeitura ressalta que a existência de investigação não significa comprovação das acusações nem permite atribuir responsabilidade às pessoas nela mencionadas. Sempre que formalmente requisitada pelos órgãos de controle e investigação, a Administração Municipal presta as informações e fornece os documentos necessários para o completo esclarecimento dos fatos.
A Prefeitura e os agentes públicos citados permanecem à disposição das autoridades competentes para quaisquer esclarecimentos.
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