Por Marta Serafinko
17 Set (Reuters) - Um pequeno felino selvagem que habita a floresta nublada da Bolívia foi identificado como uma espécie até então desconhecida, marcando a primeira vez em mais de um século que uma nova espécie viva de felino é formalmente nomeada e descrita.
O felino, chamado de Tilcayo pelas comunidades locais, faz parte de um grupo conhecido como gatos-tigre, encontrado em grande parte da América do Sul. Ele foi encontrado na exuberante floresta de Yungas, na Bolívia, região montanhosa onde as florestas costumam estar cobertas por nuvens e cercadas por alta umidade, segundo os pesquisadores. Ele mede cerca de 46 cm de comprimento e pesa cerca 1,4 kg, o que o torna menor do que o gato doméstico médio.
Os pesquisadores utilizaram dados genéticos para confirmar que o gato é uma nova espécie e deram a ele o nome científico Leopardus tilcayo, mantendo seu nome local.
“Sua pelagem é marrom-clara... com rosetas de formato irregular por todo o corpo”, disse Paola Nogales-Ascarrunz, exploradora da National Geographic e uma das autoras do estudo que descreve a espécie recém-identificada publicado nesta quinta-feira na revista Current Biology.
Ainda se sabe pouco sobre a biologia e o estilo de vida do felino. Restos de pequenos roedores em amostras de fezes sugerem que eles possam fazer parte de sua dieta, enquanto evidências de câmeras de armadilha indicam que ele poderia ser mais ativo à noite, disse Nogales-Ascarrunz.
Os gatos-tigre são as chamadas espécies crípticas, o que significa que não podem ser facilmente distinguidos apenas pela aparência, disse o biólogo evolucionista e coautor principal do estudo Jonas Lescroart, da Universidade de Antuérpia, na Bélgica.
Os gatos-tigre eram anteriormente considerados uma única espécie, mas estudos genéticos realizados há décadas sugeriram a existência de várias espécies.
Referindo-se à nova espécie, Lescroart disse: “Nossas informações, neste momento, limitam-se aos dois indivíduos vivos que examinamos e a um pequeno número de registros de câmeras de vigilância.”
Um dos felinos vivos é um macho de 10 anos que agora vive no Santuário de Vida Selvagem Senda Verde, após ter sido criado por uma família local em sua casa.
UM ANIMAL DIFERENTE
A observação do gato boliviano despertou interesse porque “suas características não correspondiam às descrições, a maioria delas baseada em gatos brasileiros”, disse Nogales-Ascarrunz. “Isso nos fez questionar: que tipo de gato-tigre temos, na verdade, na Bolívia?”
A equipe analisou o DNA coletado de 38 gatos em vários países da América do Sul, incluindo oito espécimes de museu. O estudo constatou que os gatos-tigre são, na verdade, cinco espécies geneticamente distintas.
“Nunca esperávamos que esse gato-tigre boliviano fosse uma espécie separada, e ninguém jamais havia proposto que ele fosse um animal diferente, uma subespécie ou algo do tipo”, disse Lescroart.
A análise genética sugeriu que a linhagem de Tilcayo se separou dos outros gatos-tigre há cerca de 1,4 milhão de anos.
“Quanto mais diferenças houver no DNA, maior será o tempo que estimamos que essas linhagens tenham estado fisicamente separadas”, disse Lescroart, acrescentando que tal intervalo é geralmente considerado uma divisão no nível de espécie entre os felinos.
A equipe de pesquisa também descreveu uma nova subespécie de gato-tigre nos Yungas, no Peru, batizando-a de Leopardus tigrinus antisuyo em homenagem a Antisuyu, a região do antigo Império Inca que incluía a área onde ela habita.
A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que acompanha o status das espécies, atualmente trata os gatos-tigre como duas espécies “vulneráveis” com populações em declínio.
Os pesquisadores compartilharam suas descobertas com a IUCN, cuja próxima revisão avaliará as cinco linhagens separadamente. Isso poderia fornecer um panorama mais preciso do risco, disse Lescroart, e espécies como o Tilcayo poderiam, potencialmente, ser consideradas ameaçadas de extinção quando avaliadas individualmente.
A necessidade de uma avaliação mais clara é particularmente premente nos Yungas, um dos ecossistemas mais ameaçados da região.
As florestas de montanha enfrentam pressão crescente devido ao desmatamento, à expansão agrícola, aos incêndios causados pelo homem e à mineração, disse Nogales-Ascarrunz. Restaurar fragmentos florestais danificados por incêndios, proteger a floresta nativa remanescente e manter as conexões entre os habitats são prioridades urgentes, acrescentou.
“Mostrar ao público em geral que, mesmo em um grupo emblemático como o dos felinos... ainda há novas espécies a serem descobertas pode transmitir uma mensagem importante”, disse Eduardo Eizirik, biólogo evolucionista da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, no Brasil, e autor sênior do estudo.
“Existem muitas espécies ainda não descobertas no mundo, e elas correm o risco de desaparecer antes mesmo de serem descobertas.”
(Reportagem de Marta Serafinko em Gdańsk, Polônia)
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