Basta abrir o celular pela manhã.
Antes mesmo do café, já chega uma enxurrada de notícias.
Um terremoto do outro lado do planeta. Uma enchente que leva bairros inteiros. Um calor que quebra recordes. Uma seca onde antes havia rios. Uma tempestade onde nunca se imaginou.
Enquanto isso, a tela desliza sem pedir licença. Golpes pela internet se multiplicam. Rostos são clonados por inteligência artificial. Vozes são copiadas. Mensagens parecem verdadeiras. Já não sabemos se estamos conversando com uma pessoa... ou com uma máquina.
A tecnologia evolui numa velocidade que impressiona.
E, curiosamente, quanto mais conectados ficamos, mais difícil parece encontrar alguém disposto a olhar nos olhos.
Os robôs aprendem a falar.
As pessoas desaprendem a conversar.
Em muitas famílias, a mesa continua posta.
Mas cada um faz a refeição olhando para uma tela diferente.
Os pais trabalham cada vez mais. Não porque sejam gananciosos, mas porque a vida ficou cara, os sonhos custam caro e todos querem oferecer o melhor para quem amam.
Os filhos, por sua vez, cresceram dentro de um mundo onde o toque da tela acontece antes do abraço.
Não é culpa de uma geração. É o tempo em que estamos vivendo.Também chama atenção como religião e política passaram a ocupar o mesmo espaço em muitas conversas. Em vez de apenas inspirar a fé, frequentemente os debates giram em torno de disputas, eleições e polarizações. Em muitos lugares, o que deveria aproximar acaba separando. E então surge uma pergunta antiga.
Quando o Apocalipse acontece?
Será que ele chega num único dia, com trombetas, fogo e sinais no céu?
Ou será que começa bem antes... Quando perdemos a capacidade de ouvir. Quando a mentira passa a viajar mais rápido que a verdade. Quando a tecnologia ocupa o lugar da consciência.Quando conhecemos milhares de pessoas pela internet, mas esquecemos o nome do vizinho. Quando uma curtida vale mais que uma visita. Quando uma família inteira passa a noite na mesma sala... sem trocar uma palavra.
Talvez o maior terremoto não seja o que faz os prédios balançarem.Talvez seja aquele que sacode os nossos valores. Talvez a maior tempestade não seja a que derruba árvores. Talvez seja aquela que derruba a nossa capacidade de sentir compaixão. Talvez o maior apagão não seja o da energia elétrica. Talvez seja o da esperança.
O livro do Apocalipse sempre despertou curiosidade porque fala de acontecimentos extraordinários. Mas talvez exista uma pergunta ainda mais importante do que tentar descobrir quando ele acontecerá.
Como estaremos vivendo quando esse dia chegar?
Porque, enquanto discutimos datas, previsões e teorias, o tempo continua passando.
As crianças continuam crescendo.
Os pais continuam envelhecendo.
Os avós continuam esperando uma visita.
E Deus continua falando baixinho, num mundo que faz cada vez mais barulho.
Talvez o verdadeiro sinal dos tempos não esteja apenas nos fenômenos da natureza.
Talvez ele esteja na velocidade com que deixamos de cuidar uns dos outros.
Se o Apocalipse já começou, ninguém pode afirmar.
Mas uma coisa é certa.
Ainda há tempo para desligar um pouco o celular, abraçar quem está perto, ensinar valores aos filhos, ouvir os pais, cuidar dos amigos e lembrar que nenhuma tecnologia será capaz de substituir o amor, a fé, a honestidade e a esperança.
Porque, se existe uma forma de enfrentar qualquer fim do mundo, ela sempre começará dentro de cada um de nós.
Silvia Simões
Cirurgiã Dentista universidade Federal do Amazonas- Especialista em Odontologia – Saúde Pública – Universidade Federal do Amazonas- Especialista MBA em Administração Hospitalar e Gestão de Serviços de Saúde – Universidade Nilton Lins- Especialista MBA em Gestão de Cooperativas – Faculdades Integradas de Taquara-Mestra em Clínicas Odontológicas – Centro de Ensino e Pesquisa de Pós-Graduação do Norte – Professora Universitária- Coordenadora do Curso de Odontologia Hospitalar- Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)-Ex- Diretora Administrativa do sicoob [email protected]
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