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Silvia Simões

Lágrimas da Amazônia

Silvia Simões
Por Silvia Simões
21/07/2026 12h24 — em Silvia Simões

Chico Pequeno conhecia os rios como quem conhece a própria palma da mão. Pescador

desde menino, nunca temera a mata — até aquele dia. A correnteza mudou sem aviso, o céu

escureceu mais cedo, e quando percebeu, já não reconhecia mais nada na comunidade Varre Vento.

O primeiro dia foi de esperança. O segundo, de silêncio. No terceiro, a floresta passou a

respirar contra ele.

Cobras cruzavam seu caminho como sombras vivas. Um rugido de onça ecoava distante,

mas parecia sempre atrás dele. E à noite… vozes. Sussurros que o chamavam pelo nome, como se a

mata o conhecesse melhor do que ele mesmo.

Cansado, faminto e com os olhos ardendo de medo, Chico Pequeno já não corria — apenas

sobrevivia.

Foi então que avistou a cabana. Feita de palha, simples, quase escondida entre as árvores,

parecia não pertencer ao mundo. Com as últimas forças, ele se aproximou e bateu.

A porta se abriu. Um senhor de pele escura, olhos profundos e serenos, o observou como

quem já esperava por ele.

— Entre — disse, com voz calma.

Chico Pequeno entrou tremendo. Recebeu água. Comida. Silêncio.

Depois de algum tempo, ainda com a respiração pesada, perguntou:

— Por que o senhor vive aqui… sozinho… no meio disso tudo?

O velho sorriu de leve, como quem guarda um segredo antigo.

— Eu não estou sozinho. Eu estou com ela.

— Ela?

— A floresta.

Chico Pequeno sentiu um arrepio.

— Meu nome é Mundico Saturnino — continuou o homem — guardião da floresta amazônica.

Estou aqui para que ela não chore.

— Chore?

O velho olhou ao redor. As árvores pareciam ouvir.

— Cada árvore derrubada, cada rio ferido… são lágrimas. Se ninguém cuidar, a Amazônia se

perde… e quando ela se perde, nós também.

O silêncio que se seguiu não era vazio — era pesado.

Naquela noite, Chico Pequeno dormiu pela primeira vez em dias sem medo. Ao amanhecer, a

cabana não estava mais lá.

Nem o velho Mundico Saturnino.Apenas a floresta… intacta.

E, pela primeira vez, Chico Pequeno entendeu:

Nem todo perdido está sozinho — alguns estão sendo encontrados.

Ao despertar, Chico Pequeno sentiu algo diferente no ar. A floresta já não parecia ameaçadora —

era como se o observasse em silêncio, permitindo sua passagem. Sem saber explicar como, seus pés

encontraram o caminho de volta, desviando de igarapés e raízes como se fossem guiados por uma

força invisível.

Horas depois, o som conhecido do rio o acolheu. E, ao longe, avistou sua casa simples, à beira das

águas barrentas do Rio Amazonas.

Antes mesmo de chegar, viu sua família reunida, rostos marcados pela angústia. Quando o

reconheceram, correram ao seu encontro — abraços apertados, lágrimas sinceras, vozes embargadas

de alívio.

Chico Pequeno, ainda em silêncio, olhou cada um deles. Respirou fundo, como quem trazia consigo

algo maior do que palavras.

— Minha família… — começou, com a voz firme — nós não podemos deixar que a Amazônia se

transforme em um rio de lágrimas.

Todos se calaram.

— Perdido nesses dias na floresta, eu aprendi… aprendi a respeitar. A mata não é só lugar… ela é

vida. E essa vida precisa da gente.

Ele fez uma pausa, lembrando dos olhos de Mundico Saturnino.

— Temos que levar isso adiante. Não só pra nós… mas pro mundo todo. Precisamos salvar a

Amazônia, para as futuras gerações.

O vento soprou leve, como um sussurro entre as árvores.

E, naquele instante, Chico Pequeno já não era apenas um pescador — era alguém que carregava a

missão de impedir que as lágrimas da Amazônia corressem em vão.

Silvia Simões

Silvia Simões

Cirurgiã Dentista universidade Federal do Amazonas- Especialista em Odontologia – Saúde Pública – Universidade Federal do Amazonas- Especialista MBA em Administração Hospitalar e Gestão de Serviços de Saúde – Universidade Nilton Lins- Especialista MBA em Gestão de Cooperativas – Faculdades Integradas de Taquara-Mestra em Clínicas Odontológicas – Centro de Ensino e Pesquisa de Pós-Graduação do Norte – Professora Universitária- Coordenadora do Curso de Odontologia Hospitalar- Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)-Ex- Diretora Administrativa do sicoob [email protected]

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