Por Akash Sriram
10 Jul (Reuters) - O bilionário Elon Musk pode ter apresentado um futuro em que o espaço impulsiona a inteligência artificial, mas analistas de Wall Street afirmam que o valor da SpaceX no curto prazo continua firmemente ligado à Terra, onde a empresa está construindo a infraestrutura que sustenta o boom da IA.
Os provedores de infraestrutura, especialmente os data centers, devem estar entre os maiores beneficiários do boom da IA, à medida que empresas e consumidores adotam rapidamente a tecnologia para aplicações que vão da programação de software e robótica às tarefas cotidianas, como compras e planejamento.
A SpaceX, um importante participante no setor de IA, já começou a monetizar recursos computacionais por meio de acordos com clientes corporativos, incluindo a Anthropic, para seus clusters de supercomputadores Colossus. Em contrapartida, seu plano de IA orbital continua sendo uma oportunidade de longo prazo que depende da introdução dos foguetes Starship, com custos de lançamento mais baixos, e de avanços tecnológicos.
Documentos da empresa analisados pela Reuters e comentários de institutos de pesquisa mostram que a receita de seus mais recentes contratos de computação deve superar em muito as vendas de outros segmentos neste ano.
“A narrativa de que a IA orbital causará uma ruptura fundamental nos data centers terrestres é um pouco exagerada. Qualquer tipo de substituição dos data centers terrestres está a mais de dez anos de distância”, disse Anthony Milovantsev, sócio da consultoria Altman Solon.
O J.P. Morgan espera que a SpaceX expanda a capacidade de computação de IA terrestre para cerca de 9 gigawatts até 2029 -- o que equivale, aproximadamente, a quatro vezes a energia gerada pela Represa Hoover, importante para o abastecimento do sudoeste dos EUA.
“Após 2029, esperamos que a SpaceX mude seu foco para a computação orbital para obter aumentos incrementais de capacidade, enquanto continua a operar e manter seus clusters de computação terrestres”, afirmou a corretora.
RETORNO DA COMPUTAÇÃO TERRESTRE
Espera-se que os acordos da SpaceX com a Anthropic, o Google, da Alphabet, e a Reflection AI para suas instalações de computação Colossus gerem mais de US$28 bilhões em receita anual.
Esse valor excede em muito a receita da SpaceX com IA em 2025, de cerca de US$3,2 bilhões, e supera a receita de seus negócios de lançamentos e conectividade Starlink, considerados individualmente, de acordo com cálculos da Reuters.
Analistas alertaram que os contratos contêm cláusulas de rescisão e não devem ser vistos como receita recorrente garantida no longo prazo.
A SpaceX investiu quase US$18 bilhões em infraestrutura e desenvolvimento de IA em 2025, incluindo cerca de US$12,7 bilhões em despesas de capital relacionadas à IA e US$5,1 bilhões em pesquisa e desenvolvimento na área, superando em muito os gastos com seus negócios espaciais e de conectividade, de acordo com documentos da empresa analisados pela Reuters.
O Colossus e o Colossus II, juntos, fornecem cerca de 1 gigawatt de capacidade computacional de IA, colocando a SpaceX entre as maiores operadoras de computação de IA do mundo. Analistas esperam que essa presença se expanda várias vezes nos próximos anos.
Várias corretoras também citam a aquisição, pela SpaceX, da startup de programação de IA Cursor, no valor de US$60 bilhões, como evidência de que a empresa está se expandindo além da infraestrutura para o setor de software empresarial, o que lhe permite monetizar tanto as aplicações de IA quanto a capacidade computacional por trás delas.
IA ORBITAL COMO APOSTA DE LONGO PRAZO
A maioria das corretoras que iniciaram a cobertura da SpaceX após sua abertura de capital está tratando a IA orbital como uma oportunidade de longo prazo, enquanto baseia suas previsões financeiras de curto prazo na infraestrutura de IA terrestre.
“Consideramos que a viabilidade de longo prazo dos data centers orbitais ainda não foi comprovada e depende fortemente de marcos tecnológicos importantes que ainda não foram plenamente alcançados”, afirmaram analistas do BofA em uma nota.
Os analistas esperam, de maneira geral, que a computação terrestre impulsione o crescimento e os lucros da SpaceX pelo restante da década. A IA orbital dependeria de que a Starship alcance rápida reutilização, custos de lançamento mais baixos e avanços na engenharia de satélites.
A maioria dos analistas afirma que a Starship pode, eventualmente, ajudar a implantar satélites de computação movidos a energia solar, o que poderia reduzir os custos associados à energia, ao resfriamento e ao uso de terrenos -- alguns dos principais desafios dos data centers terrestres.
O debate, segundo os analistas, não é mais sobre a capacidade da SpaceX de construir e monetizar infraestrutura de IA. Trata-se, na verdade, de quão rapidamente ela transformará essa oportunidade em um negócio viável além da atmosfera terrestre.
(Reportagem de Akash Sriram em Bengaluru)




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