Na imagem, a senhora Aglair Carneiro, 90, aparece raspando o cabelo do filho, que trabalha há 23 anos capinando, roçando e limpando quintais. Ele mora em uma casa de madeira alugada no bairro do Coqueiro, periferia de Belém.
"A minha mãe morava comigo, mas se mudou para a casa da minha irmã, que mora perto, pois tive que vender o botijão de gás para ajudar a pagar o curso preparatório para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio)", conta Alcyr, logo após ministrar uma palestra motivacional a convite de uma escola da capital paraense -reflexo da fama instantânea.
A motivação para fazer um curso superior foi a vontade de melhorar de vida. "A minha realidade é muito difícil, quero dar uma vida melhor para a minha mãe. Eu tinha duas opções: ganhar na Mega-Sena ou vencer pela educação".
Alcyr vai ser a segunda pessoa de toda sua família a fazer um curso superior. O primeiro foi seu sobrinho, que é médico, que o ajudava dando roupas usadas --até um dia lhe oferecer um jaleco branco já usado, rasgado, para trabalhar na rua e não pegar sol.
"Só que daí eu peguei o jaleco, levei para o meu quarto, coloquei no cabide. Ele me serviu de inspiração. Quando eu estava estudando, e vinha o sono e o desânimo, eu olhava para o jaleco e pensava: ainda vou usar um desses."
Para fazer o cursinho, ele teve que reduzir a jornada de trabalho. "Passei a trabalhar só de manhã, das 6h às 13h, pois o curso era das 13h30 às 18h. Então, eu trabalhava, saía correndo, às vezes, nem almoçava".
A rotina de estudos era dura e intensa. Depois de jantar na casa da irmã e da mãe nonagenária, chegava em casa e estudava das 21h à meia noite. Acordava 2h depois.
"Então eu continuava estudando até as 4h. Depois eu ia para a calçada da minha irmã para pegar o sinal do wifi dela e ficava vendo aulas no YouTube no meu celular. Ficava lá até as 6h e depois ia trabalhar. Na verdade, eu só dormia mesmo da meia-noite às 2h. Era meu sono."
Para ajudar a pagar o cursinho, cuja mensalidade era de R$ 105, Alcyr fazia, às vezes, limpeza na própria escola. "Eu capinava, e eles descontavam na mensalidade." Todo esse esforço e as noites sem dormir valeram a pena quando ele ouviu o resultado da sua aprovação no rádio.
"Eu joguei o aparelho na parede de tanta alegria. Saí correndo pela rua, gritando, debaixo de chuva. Fui à casa da minha irmã porque eu queria abraçar primeiro a minha mãe. Lá cortaram meu cabelo, fizeram aquela festa para mim, foi a maior alegria".
Ele e a mãe choraram, pelo resultado de tanto esforço. "Eu também chorei porque eu sou chorão. Lembrei de tudo o que passei, não foi fácil. Eu fiquei tão feliz que eu passei dois dias sem comer, porque não tinha fome. Minha irmã insistia para eu comer, e eu dizia que a felicidade estava suprindo a minha fome".
O sucesso do paraense foi compartilhado até na página do Cofen (Conselho Federal de Enfermagem), com a mensagem: "alimente seus sonhos. Alcyr Ataíde Carneiro escreveu seu nome em um dos primeiros capítulos do Ano da Enfermagem (2020 foi escolhido como o ano dos profissionais de enfermagem e obstetrícia pela Organização Mundial da Saúde). O senhor, que trabalhava roçando quintais de dia e à noite se dedicava aos estudos, é o mais novo postulante a enfermeiro pela Universidade Federal do Pará".
Entre os comentários, o professor da UFPA Carlos Leonardo Cunha escreveu: "Será meu aluno com muito orgulho!".
Divorciado, Alcyr também espera que sua aprovação incentive os netos adolescentes a fazerem universidade e, quem sabe, os três filhos, de 40, 37 e 36 anos.
