Itamar Vieira Junior encerrou sua trilogia sobre a terra com o lançamento de Coração sem Medo , apresentado na sexta-feira (7) diante de um palco lotado ao ar livre, no Largo do Pelourinho, durante a 10ª Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em Salvador. Iniciada com o best-seller Torto Arado e continuada em Salvar o Fogo , a série se fecha agora com a história de Rita Preta, operadora de caixa de supermercado que vê um dos três filhos desaparecer e sai em busca de respostas. "É a história daqueles que foram desterrados, que não puderam lutar pela terra", resumiu o autor.
Embora seja ficção, o enredo espelha uma estatística dura do país. Apenas no primeiro semestre deste ano, o Brasil registrou 43.828 pessoas desaparecidas — média de 242 casos por dia. Em 2025, foram 85.232 registros, cerca de 234 por dia. Os números constam do Painel Estatístico do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça, e podem estar subdimensionados, já que muitas ocorrências sequer chegam a ser notificadas. Para o escritor, o drama atravessa todas as classes sociais, mas recai com mais força sobre mães das periferias, justamente onde as políticas públicas chegam menos.
Vieira Junior defende que a arte cumpre um papel que o noticiário não alcança. Segundo ele, essas histórias aparecem na imprensa de maneira superficial, enquanto cabe à literatura tratar dos sentimentos e das subjetividades — devolver humanidade ao que foi desumanizado. O autor faz questão de dizer, porém, que o romance não oferece soluções: a função da arte, na visão dele, é provocar incômodo e reflexão, e é desse desconforto que nascem as mudanças.
A grande virada deste terceiro livro é geográfica. Se em Torto Arado a terra aparecia como território e pertencimento, e em Salvar o Fogo se misturava a violência, fé e disputa pelo sagrado, agora a ação migra do campo para a Salvador urbana, marcada pelo deslocamento e pela violência contemporânea. Rita Preta é uma mulher que deixa o interior e descobre que a cidade também é um território desigual e em disputa. Para o escritor, o corpo do filho desaparecido é, ele próprio, um território — mais uma terra arrancada de quem já havia perdido tudo.




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