A mesa mais política da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) até então foi a que reuniu o professor, pesquisador e escritor João Cezar de Castro Rocha e o psicanalista, tradutor e escritor Paulo Schiller no início da tarde deste sábado, 25, no Auditório da Matriz. Com mediação de Anabela Mota Ribeiro, os dois debateram a ascensão do autoritarismo global e da extrema direita.
"Estamos em guerra permanente. O avanço da extrema direita só é compreensível se entendermos que o modelo dela é o da guerra cultural sem trégua", afirmou Castro Rocha em uma de suas primeiras falas. Ele argumenta que essa guerra cultural torna-se permanente a partir da "hiperpolitização do cotidiano" e da "retórica do ódio".
Essas ideias são expressadas pelo pesquisador, que é professor de Literatura Comparada na UERJ, no livro A Era de Ricardo III. Memórias do Subsolo: Guerra Cultural como Método (Autêntica), que está sendo lançado na Flip 2026. No livro, Castro Rocha compara o personagem de Shakespeare com políticos como Jair Bolsonaro, Donald Trump, Javier Milei e Viktor Orbán.
Em Ricardo III, o vilão exibe com orgulho seus planos para chegar ao poder, algo que o acadêmico diz ser comum na extrema direita. "Não é mais sequer a banalidade do mal, é a explicitude do mal", disse ele. "Vocês têm dúvidas de que Milei, Trump, Bolsonaro, Orbán matariam dois sobrinhos para chegar ao poder?", disse, em referência à trama da peça shakespeariana.
Para Castro Rocha, "vivemos um momento de radical transição". "Estamos no meio do redemoinho. Não compreendemos isso porque estamos no meio do furação, mas os sinais de transição são muito óbvios". Ele cita três: a ascensão de uma nova superpotência, a China, a modificação radical na formação da subjetividade e a mecanização do cotidiano, ancorada principalmente nas IAs, "que não sabemos onde chegará".
Questionado sobre ex-presidente Jair Bolsonaro, foi contundente em suas críticas: "Bolsonaro não é político, é franquia cuja especialidade é o peculato". O pesquisador argumenta que Flávio Bolsonaro, cuja candidatura à presidência foi oficializada nesta manhã, segue competitivo porque a "figura do messias acompanha a família" e mantém força com a população evangélica brasileira.
O diálogo com o psicanalista Paulo Schiller surgiu a partir da premissa do A Paixão Pela Mentira, lançado pela Todavia em 2025, ensaio em que analisa como as histórias familiares que escuta em seu consultório podem ajudar a explicar o crescimento do autoritarismo.
O questionamento começou durante a pandemia de covid-19, quando viu colegas médicos respeitados receitando medicamentos sem comprovação científica e questionando a eficácia da vacina "Desde então, sou tomado pela pergunta de por que tanta gente se encanta por regimes autoritários", explicou.
"Por que tanta gente vota naquele que um dia irá prejudicá-lo, primariamente? Por que judeus votam em antissemitas, gays votam em homofóbicos, negros em racistas?", explicou. "Por que eu repito aquilo que me faz mal? É uma pergunta central de toda análise. O livro é a tentativa de resposta a isso."
Os intelectuais debateram sobre como o ressentimento está na raiz de muitas dessas questões. "Os ressentidos encontraram um meio de expressão: as redes sociais", disse Castro Rocha. Sobre os governos autoritários, Schiller ainda afirmou: "O que não é explicitado [por eles] é que o plano de governo é a perpetuação da desigualdade."
*A repórter viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026



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