Um pastor solitário lê romances policiais em voz alta para suas ovelhas toda noite, sem imaginar que elas estão absorvendo cada palavra. É dessa premissa improvável - e irresistível - que nasce As Ovelhas Detetives, estreia desta quinta-feira, 7, nos cinemas e uma das boas surpresas das telonas em 2026.
Na história, George Hardy (Hugh Jackman) é um homem de poucas palavras e muita afeição pelos animais. Ele não tem celular, não tem muita paciência para gente, e faz da leitura noturna para o seu rebanho um ritual sagrado. O que ele nunca imaginou é que, quando um crime abala a paz da fazenda, serão exatamente essas ovelhas - cultas, perspicazes e determinadas - as responsáveis por desvendar o mistério.
Em coletiva de imprensa com a presença do Estadão , Jackman não economizou no entusiasmo ao contar como foi fisgado pela trama simples, emocionante e eficaz. "Quando recebi o roteiro, me disseram: é uma mistura de Babe: O Porquinho Atrapalhado com Entre Facas e Segredos", conta "Eu só pensei como nunca vi nada parecido antes".
O roteirista é Craig Mazin - o mesmo de Chernobyl e The Last of Us -, e a direção ficou a cargo de Kyle Balda, de filmes do universo de Meu Malvado Favorito. Uma combinação que, segundo Jackman, resulta em algo que vai além das categorias. "É um filme sobre crescer, em todas as suas formas", diz. "Sobre as verdades difíceis, as coisas assustadoras que às vezes a gente não quer encarar. Quando vi o resultado final, chorei e ri, e meu coração ficou cheio. Senti orgulho".
O ator, que tem 57 anos e que divide seu tempo de trabalho entre as telonas e os palcos da Broadway, completou com uma dose de humor certeiro. "É um filme que eu veria como adulto, levaria meus filhos - quase netos - para ver, e recomendaria para qualquer pessoa", disse.
Mas talvez a presença mais irresistível do filme seja a voz de Julia Louis-Dreyfus como Lily, a ovelha mais inteligente do rebanho. A atriz - eterna Elaine de Seinfeld e vencedora de mais Emmys do que qualquer outra pessoa na história da televisão - mergulhou no papel com uma seriedade cômica que é só dela.
"Eu nunca tinha interpretado uma ovelha. E sempre quis ser uma ovelha", declarou ela na coletiva, com aquele timing impecável que é sua marca registrada. O elenco todo riu, mas Julia estava falando (meio) a sério.
A ovelha intelectual
Lily é uma personagem com profundidade: ela adora o pastor, usa tudo o que aprendeu com as leituras noturnas para investigar o crime e, ao longo da trama, passa por uma transformação genuína. "Ela tem um arco real", explicou Julia. "Sua personagem cresce de uma forma muito significativa ao longo do filme".
O desafio de dar vida a uma ovelha apenas com a voz, sem câmeras, sem figurino, sem o parceiro de cena de verdade, foi algo que a atriz descreveu com honestidade. "Eu ficava num estúdio escuro, de fone de ouvido, com o roteiro na mão", conta. "Alguém na outra sala lia as outras falas. E eu precisava imaginar que estava numa colina, com as outras ovelhas, tentando resolver um crime".
Ela admitiu que, no fundo, prefere usar o corpo inteiro quando atua. Mas viu beleza no desafio. "É diferente, é incrível. Ver tudo junto no produto final é algo que simplesmente explode sua cabeça. Fiquei encantada", diz.
Perguntada sobre como substitui a expressão física - sua arma secreta como comediante - ao trabalhar só com a voz, Julia deu uma resposta que resume bem quem ela é: "eu pulo bastante pelo estúdio. Vocês não veem isso, mas acreditem, eu fico pulando".
Uma farsa com coração
O elenco é completado por Nicholas Braun (o Greg de Succession) como o único policial da cidade, sempre um passo atrás das ovelhas; Molly Gordon como uma visitante que se vê no meio do mistério; e Chris O'Dowd emprestando sua voz para Mopple, a ovelha que lembra de tudo, inclusive das coisas ruins.
As vozes de Bryan Cranston e Sir Patrick Stewart também integram o elenco, numa convocação de peso que reforça a ambição do projeto.
O filme foi rodado na campina britânica, com diárias de 12 horas, chuva constante e um detalhe curioso: os atores humanos precisavam contracenar com pedaços de papelão e bolas de prata sobre as quais, mais tarde, seriam inseridas as ovelhas digitais. Molly Gordon contou que só descobriu depois que o "papelão" com quem contracenou seu primeiro dia de filmagens - às cinco da manhã, numa colina, com chuva - era, na verdade, a personagem de Julia Louis-Dreyfus. "Que presente", disse ela.
Jackman teve sorte diferente: a produção escalou um titereiro profissional para operar uma ovelha de tamanho real durante as gravações. "Eu conseguia ver emoção, nuance, pensamento naquele boneco. Foi lindo. E de repente me vi conversando com uma ovelha que parecia capaz de me responder", conta.
No final das contas, As Ovelhas Detetives lembra Babe não só pelo clima rural da fazenda, como também por ser aquele tipo de projeto que grandes estúdios não abraçam mais. Um filme médio, para a família, sem uma ambição desmedida.
Questionado por uma criança na plateia da coletiva, Jackman foi certeiro sobre o que quer que o filme cause. "Espero que as pessoas saiam com um sorriso no rosto, o coração aberto e sem pedir cordeiro no jantar", respondeu, aos risos.



