Manaus/AM - Quando for aberta no próximo dia 17, a 14ª edição da Bienal Naïfs do Brasil, no Sesc Piracicaba, em São Paulo, uma novidade amazônica será exibida aos visitantes. A arte bela e criativa produzida pelas mãos e coração da indígena Duhigó, da etnia Tukano, natural do município de São Gabriel da Cachoeira, lugar que ainda detém a maior população indígena do Amazonas.
Ela é a primeira indígena do Amazonas a participar da Bienal Naïfs e vai mostrar nas suas telas, as cores do céu, das águas, das flores, folhas, galhos, bichos, pedras e artefatos das etnias de São Gabriel da Cachoeira, município distante da capital amazonense 858 quilômetros em linha reta.
Dois trabalhos de Duhigó, cujo nome significa “mulher que lidera”, “primogênita”, “mulher que trabalha” foram selecionados entre 1.106 obras de arte inscritas por 583 artistas e estarão sendo alvo de olhares tanto de visitantes quanto de artistas e especialistas em arte Naïfs. As obras de Duhigó são pinturas em acrílica sobre tela com o título: “Maloca Tuyuka” – que traz uma lembrança ancestral das malocas dos índios Tuyukas da região do Alto Rio Negro, no Amazonas e “Imirõm – Pequeno Cacuri” que narra uma cena de pesca com o objeto indígena Cacuri. A Bienal deste ano recebe o título "Daquilo que Escapa", com curadoria de Armando Queiroz, Juliana Okuda e Ricardo Resende.
As obras apresentadas na Bienal Naïfs é composta por bordados, desenhos, esculturas, gravuras, pinturas, vídeos, entre outras técnicas, produzidas por 121 artistas (107 selecionados e 14 convidados), de 21 estados do país, e se reafirma como maior evento de arte Naïf do país, destacando peças que simbolizam não apenas a infinidade de relações do homem com a fauna, a flora, com o sagrado e o religioso, mas também o caráter transgressor e insubordinado do artista Naïf, sua visão crítica, engajamento e resistência.
A chamada Arte Naïf é concebida e produzida por artistas sem preparação acadêmica específica e sem a “obrigação” de terem de utilizar técnicas elaboradas e abordagens temáticas e cromáticas convencionais nos trabalhos que executam. Em geral, os artistas são autodidatas. No caso de Duhigó, a artista fez sua formação em pintura no Instituto Dirson Costa de Arte e Cultura da Amazônia (IDC), onde concluiu o curso de pintura em 2005. De lá para cá nunca mais parou e atualmente é representada pela Manaus Amazônia Galeria de Arte, em Manaus colecionando seus primeiros fãs dentro da Amazônia e fora do Brasil.

TELAS DA MEMÓRIA
Nascida na aldeia Paricachoeira, as margens do Rio Tiquié, em São Gabriel da Cachoeira, Duhigó, batizada pelo nome na tradição cristã de Maria Isabel Sampaio da Silva, chega aos 62 anos de idade redescobrindo a arte de viver e construindo caminhos novos como artista e não pretende abrir mão de sua arte para encantar as pessoas.
Para ela, trazer as cores, as águas, as matas, os bichos, as pedras, os cocares e as flores de São Gabriel nas suas pinturas e grafismos em objetos como ouriço de castanha, é como manter viva a chama da etnia Tukano na grande cidade. É pintar o que está na memória ainda viva dos temos de menina e jovem. “Não sei como as coisas estão lá, pois nunca mais tive oportunidade de ir até São Gabriel, mas do que me lembro, pinto com a certeza de que trago minha terra para perto de mim e de todos que vivem aqui”, afirmou.
Ela deixou a comunidade do Rio Tiquié aos 22 anos de idade, quando foi morar em Porto Velho (RO), onde passou 20 anos e depois radicou-se em Manaus, sempre com o propósito de voltar para sua gente.
Mas eis que surge a arte no seu caminho. Ela conheceu o Instituto Dirson Costa de Arte e Cultura da Amazônia (IDC), há cerca de 15 anos, quando se inscreveu para um curso de pintura, com o objetivo de ganhar algum dinheiro com o trabalho produzido para comprar sua passagem de volta a São Gabriel da Cachoeira.
Mãe de sete filhos, separada, ela, no entanto, foi se encantando com os pincéis, tintas e criando vínculos com um trabalho que só evoluiu. O traçado delicado, mas forte, em cores que despertam o olhar, chama a atenção para os quadros dela, quando trazem, por exemplo, um cocar indígena. “Eu não achava que ia chegar onde cheguei, ter meu trabalho numa exposição dessas, mas estou feliz e quero ver o que virá”, diz Duhigó, cujas expectativas não vislumbram a grandiosidade do seu feito.
Concorrer com 583 artistas de todo o Brasil e estar entre os 121 dos quais 107 selecionados e 14 convidados pela Bienal é especial. Entre muitos objetivos temáticos da seleção para expor na Bienal, os curadores privilegiaram a resistência, a diversidade de relações com o sagrado, o religioso, as relações afetivas com a fauna e a flora, temas principais nas obras de Duhigó, indicativo claro de que a Bienal será o espaço para ela brilhar com a sua arte que, copiando rastros de memória, consegue trazer olhares felizes de gratidão para a beleza de seu traço nas telas e objetos artísticos.
A Bienal Naïfs do Brasil acontecerá de 18 de agosto à 25 de novembro de 2018, no Sesc Piracicaba e depois receberá uma versão itinerante pelo país.




