Outro dia, enquanto esperava o semáforo abrir, fiquei observando as pessoas ao redor. Cada uma seguia seu caminho com uma pressa diferente. Uns atravessavam a rua olhando para o celular, outros caminhavam distraídos, como se estivessem conversando consigo mesmos. Havia quem carregasse sacolas, quem segurasse a mão de uma criança e quem apenas parecesse tentar vencer mais um dia. Naquele instante, me ocorreu que, por mais parecidos que pareçamos por fora, ninguém atravessa a vida da mesma maneira.
Aqui em Manaus, especialmente nesta época do ano, o calor parece ter vontade própria. O sol castiga cedo, o asfalto devolve o calor aos pés e até a sombra das árvores parece insuficiente. Ainda assim, a cidade continua viva. O vendedor de água sorri para quem passa, alguém improvisa uma conversa na fila do café, o motorista acena para um conhecido preso no trânsito. Há uma humanidade silenciosa nesses pequenos encontros que, muitas vezes, passa despercebida.
Vivemos em um tempo curioso. Nunca tivemos tantas possibilidades de mostrar quem somos e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil esconder a própria essência. As redes sociais apresentam versões cuidadosamente editadas da felicidade. As tendências mudam numa velocidade impressionante. As opiniões parecem precisar de aprovação antes mesmo de serem ditas. E, sem perceber, começamos a nos perguntar se estamos vivendo a nossa história ou apenas tentando acompanhar a história dos outros.
Talvez seja por isso que tanta gente se sinta perdida. Afinal, identidade não nasce pronta. Ela vai sendo construída nas escolhas mais simples: na maneira como tratamos alguém que nunca mais veremos, na honestidade de admitir um erro, na coragem de recomeçar quando tudo parece dar errado. Também se revela na serenidade com que enfrentamos julgamentos precipitados, palavras injustas ou situações que fogem ao nosso controle. São esses momentos, quase sempre invisíveis, que revelam quem realmente somos.
Gosto de pensar que ninguém é definido apenas pelos dias bons. Há muito de nós nas derrotas, nos medos que enfrentamos em silêncio e nas vezes em que a vida nos obrigou a mudar de rota. Há também uma força discreta que nasce quando seguimos em frente, mesmo depois de sermos mal compreendidos ou de recebermos um peso que não era nosso. As cicatrizes, emocionais ou não, deixam marcas, mas também ensinam. E talvez amadurecer seja exatamente isso: aprender a carregar a própria história sem permitir que ela se transforme em peso.
Há também as pessoas. Algumas chegam para ficar; outras permanecem apenas o tempo suficiente para nos ensinar alguma coisa. Existem encontros que mudam destinos e despedidas que, curiosamente, nos devolvem a nós mesmos. No fim, cada vínculo deixa um pequeno traço naquilo que nos tornamos.
Ser autêntico não significa ser igual todos os dias. Mudamos de ideia, amadurecemos, aprendemos. Isso faz parte da vida. O que não deveria mudar são os valores que nos sustentam quando tudo ao redor parece instável. É essa coerência, muito mais do que qualquer discurso, que revela a nossa identidade.
No fim das contas, talvez a pergunta não seja apenas “o que te faz ser você?”. Talvez a pergunta seja outra: quanto de você ainda existe em meio a tantas expectativas, comparações e cobranças?
Porque o tempo passa, as modas mudam, os aplausos diminuem e as fotografias envelhecem. Mas aquilo que permanece quando tudo isso passa, o caráter, a sensibilidade, a forma como escolhemos viver e amar é o que verdadeiramente nos identifica. Em tempos de tantas cópias, continuar sendo genuinamente você talvez seja um dos atos mais corajosos que ainda podemos escolher.
Andréa G. Ribeiro
Advogada • Cirurgiã-Dentista • Especialista em Direito Médico, Odontológico e da Saúde • Conselheira do CRO-AM • Membro da Comissão de Ética do CRO-AM • Membro da Comissão de Direito Odontológico Nacional da ABA • Membro da Comissão da Mulher em Odontologia do Conselho Federal de Odontologia (CFO) • Membro da ALACA • Dama Comendadora Grã-Cruz da CBC • Escritora
Os artigos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais publicados nesta coluna não refletem necessariamente o pensamento do Portal do Holanda, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.


