Hoje, 3 de outubro, o Amazonas se despede de Sérgio Cardoso, aos 72 anos. A notícia traz tristeza para a cultura amazonense e para quem teve a alegria de conhecê-lo. Tive essa honra. Sérgio era amigo da minha família, e sua partida traz, junto à admiração por seu trabalho, a saudade de alguém querido.
Nascido em Manaus, em 1954, Sérgio Vieira Cardoso começou a pintar na década de 1970. Ao longo de mais de cinco décadas, dedicou-se à pintura, à fotografia, à literatura, ao teatro e ao cinema. Manaus esteve no centro de sua obra: as ruas, as pessoas, as mudanças da cidade e as desigualdades que seu olhar não deixava passar. Também levou para seus trabalhos a preocupação com a Amazônia e com a destruição da natureza.
O Direito também fez parte dessa história. Formado pela Universidade Federal do Amazonas em 1976, Sérgio construiu sua carreira jurídica como procurador do Estado do Amazonas, chegando à aposentadoria nessa função. Conciliou a profissão com a produção artística e exerceu cargos na gestão cultural, contribuindo para o serviço público e para a divulgação da nossa cultura.
No teatro, peças como “A Herança Maldita de Mercedita de La Cruz” e “Carmen de Lazone” trouxeram ao palco o imaginário popular, o humor e os dramas da vida urbana. No cinema, registrou artistas e histórias da região, deixando documentários que ajudam a conhecer e a lembrar quem participou da construção cultural da nossa terra. Em 2017, ingressou na Academia Amazonense de Letras, na cadeira nº 2, sucedendo Moacir Andrade.
Sua presença também marcou os espaços de exposição de Manaus. Em setembro de 2025, a The Art Gallery do ICBEU recebeu “Phoethicas do Vhão Urbhano”, mostra que celebrou seus 51 anos de carreira e trouxe um olhar sobre a cidade e aquilo que tantas vezes passa despercebido no cotidiano. A relação com o ICBEU ia além de suas próprias obras: Sérgio atuou por mais de dez anos como diretor cultural da instituição, idealizando e dirigindo exposições que aproximaram artistas e público.
Em setembro deste ano, voltou a compartilhar sua produção na exposição “Papers & True Graphics”, no Centro Cultural Palácio da Justiça, reunindo pinturas, fotografias e filmes de sua autoria. É comovente pensar que, há tão pouco tempo, ele apresentava mais uma vez seu trabalho à cidade que observou e retratou durante toda a vida.
Guardo também a lembrança do homem espiritualista que conheci, para além do artista e do procurador. A amizade com minha família dá a esta despedida um sentido pessoal. Escrevo com respeito por tudo o que realizou e com carinho por quem ele foi em nossa vida.
Aos familiares e amigos, deixo meu abraço e minha solidariedade. Sérgio merece ser lembrado nas exposições, nos livros, nos palcos e nos filmes, mas também nas conversas de quem conviveu com ele. Hoje nos despedimos com tristeza e gratidão. Sua obra faz parte da história do Amazonas; seu nome fica também na história da minha família.
Andréa G. Ribeiro
Advogada • Cirurgiã-Dentista • Especialista em Direito Médico, Odontológico e da Saúde • Conselheira do CRO-AM • Membro da Comissão de Ética do CRO-AM • Membro da Comissão de Direito Odontológico Nacional da ABA • Membro da Comissão da Mulher em Odontologia do Conselho Federal de Odontologia (CFO) • Membro da ALACA • Dama Comendadora Grã-Cruz da CBC • Escritora
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