Não é de hoje que a região convive com ciclos repetidos de promessas, operações emergenciais e respostas pontuais que, passado o momento de crise, não se transformam em presença permanente do Estado. Seja na fiscalização ambiental, no combate ao garimpo ilegal, na proteção de terras públicas ou na segurança de comunidades vulneráveis, o histórico tem sido marcado por ações episódicas e baixa continuidade administrativa. Esse é o pano de fundo que dá sentido ao momento atual.
Quando o Supremo Tribunal Federal precisa determinar medidas urgentes para intensificar a repressão ao crime organizado e ao garimpo ilegal na Amazônia, a decisão se mostra legítima. Mas a sua necessidade também revela algo que o país não pode ignorar: a estrutura ordinária do Estado falhou antes.
Toda vez que a situação se agrava e a resposta precisa partir do Judiciário, algo maior está sendo exposto. O STF corrige a omissão. O problema é que a repetição desse movimento mostra que a exceção começa a correr o risco de se tornar regra.
Em um cenário ideal, a Amazônia deveria contar com políticas públicas contínuas, articuladas e permanentes, capazes de antecipar a crise, e não apenas reagir a ela. Fiscalização ambiental, inteligência territorial, presença policial, proteção de povos indígenas e combate às estruturas criminosas não podem depender exclusivamente de operações extraordinárias ou de ordens emergenciais. A região exige planejamento, continuidade e presença institucional. Quando isso não ocorre, o Judiciário passa a ocupar um espaço que não lhe é naturalmente próprio: o da indução imediata da política pública.
A crítica republicana, portanto, não se dirige à legitimidade da decisão do Supremo. Dirige-se ao fato de que, na Amazônia, políticas públicas tantas vezes não conseguem sair do plano da promessa para o da permanência. É esse vazio que acaba empurrando a urgência para dentro do Judiciário. E quando a urgência se repete, o extraordinário deixa de ser exceção. A exceção passa a ameaçar a própria normalidade institucional. O verdadeiro desafio não é apenas reprimir o ilícito do presente, mas construir a presença do Estado que impeça a repetição do problema no futuro. Na Amazônia, a crise não pode continuar sendo a porta de entrada das políticas públicas.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.




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