SÃO PAULO — O presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM - RJ) fez duras críticas ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que, em artigo hoje ao jornal “Folha de S.Paulo”, fez um apelo ao presidente Michel Temer para que ele tenha a "grandeza" de reduzir seu mandato em favor de eleições diretas. Maia disse que FH, de 86 anos, se comporta como um "jovem estudante" ao abordar o tema.
— Acho que infelizmente o presidente Fernando Henrique não colabora com a experiência que tem, por ter sido presidente do Brasil duas vezes, em colocar mais pressão nessa crise que o Brasil vive. Ele é um homem que tem discutido de forma tão competente a vida inteira todos os temas da sociedade, tem sido um grande formulador, mas acho que já é a segunda vez que ele entra nesse tema. Parece que está querendo participar desse processo, não sei, como se estivesse voltando ao passado, como se fosse um jovem estudante querendo marcar uma posição — afirmou.
Durante discurso, Maia afirmou que o "Brasil precisa de muita paciência" e que não ajuda "ficar jogando temas ao ar".
— Acho que o Brasil precisa de mais conversa, de mais paciência. Ninguém sabe ainda o que vem da Procuradoria. Depois que a Procuradoria apresentar a denúncia, os parlamentares, a sociedade vão avaliar a sua decisão. O que a gente não pode é em um momento de crise que o Brasil vive, um político com a importância que o presidente Fernando Henrique tem na nossa recente democracia ficar gerando menos estabilidade —disse, em referencia à denúncia que o procurador-geral da República Rodrigo Janot deverá encaminhar até a terça-feira à Câmara.
Caberá aos deputados federais decidirem se Temer poderá ou não ser processado criminalmente pelo teor das delações do empresário Joesley Batista no âmbito da Lava-Jato. Se a Câmara autorizar a denúncia, Temer deixaria o cargo e Maia assumiria o governo interinamente até a relização de eleições indiretas. Maia não quis contabilizar se o governo conta com número suficiente de votos para barrar a denúncia.
O deputado aproveitou ainda para questionar o posicionamento do PSDB, principal partido da base aliada do governo Temer.
— No início da crise, parte do PSDB defendia eleição indireta, agora aparece apoiando diretas, acho que esse zigue-zague não colabora com o momento que o Brasil vive — disse.
Recentemente, parte da base tucana impôs uma dura derrota ao governo ao votar contra a reforma trabalhista em uma das comissões do Senado. A proposta será levado ao plenário da casa nas próximas semanas.
Admitindo- se um "otimista", Maia afirmou que o Congresso irá aprovar até setembro a legislação eleitoral que estabelece cláusula de desempenho a partidos a partir do pleito de 2018 e fim da coligação em eleições proporcionais nas eleições municipais de 2020.
— A crise ética, de falta de representatividade é tão profunda que acredito que a gente consiga montar um cenário para as próximas duas ou três eleições — disse Maia, que participou de um seminário organizado pela Federação da Indústria do Estado de São Paulo (FIESP), na tarde desta segunda-feira.
— Temos que aproveitar a oportunidade da crise, que não é boa porque atinge a todos, sobretudo o Executivo, para fazer essa discussão — emendou o deputado.
Segundo Maia, a dificuldade da reforma está em obter um consenso no novo formato do sistema eleitoral. O presidente da Câmara afirmou defender o sistema de lista pré-ordenada ou fechada, aquela em que o eleitor vota na legenda e o partido determina a ordem dos candidatos que ocuparão as cadeiras do Parlamento.
— É o sistema atual melhorado, mas foi tão demonizado que, em um segundo momento, acho que acabaremos com um sistema de voto distrital misto.
Para o presidente da Câmara, somente depois de remodelar tais regras de competição, será possível discutir formas de governo como o parlamentarismo.
— Não é simples constituir maioria (para aprovar reforma política), mas eu sou otimista. a gente tem que construir bases novas até para podermos discutir formas de governo. Se estamos discutindo o recall no Senado, melhor seria discutir se devemos manter o presidencialismo ou caminhar para o parlamentarismo.

