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Cura pela Natureza

O mito da graviola contra o câncer nasceu de um estudo que nunca saiu do laboratório

O mito da graviola contra o câncer nasceu de um estudo que nunca saiu do laboratório
Graviola (Annona muricata): fruta amazônica cercada de mitos sobre cura do câncer

A graviola ( Annona muricata ), fruta cultivada em quintais e sítios de toda a Amazônia e vendida em polpas e sucos nas feiras de Manaus, carrega há anos uma fama que circula com força em grupos de WhatsApp: a de que o chá das suas folhas ou o consumo da fruta "mataria as células cancerígenas e pouparia as saudáveis". A promessa é tentadora e simples demais para ser verdadeira — e a ciência que a sustenta é bem mais frágil do que parece.

A origem do mito é um estudo de laboratório de 1995, conduzido nos Estados Unidos, que encontrou na graviola uma substância chamada acetogenina — especificamente a cis-anonacina — milhares de vezes mais potente que um quimioterápico comum contra células de câncer de cólon cultivadas em placa de petri. O problema é que esse resultado nunca foi replicado com o mesmo rigor, nunca avançou para testes em animais de forma consistente e, quase trinta anos depois, segue sem qualquer teste em seres humanos. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) já se posicionou sobre o tema: não existe atualização científica que sustente o uso da graviola contra o câncer, e não há "alimento milagroso" capaz de substituir o tratamento oncológico convencional.

E há um contraponto que os vídeos e mensagens que promovem a fruta raramente mencionam: a mesma família de substâncias responsável pela promessa anticâncer, os acetogeninos, inclui a anonacina, um composto tóxico para neurônios. Pesquisas conduzidas na ilha caribenha de Guadalupe associaram o consumo frequente e prolongado de frutas do gênero Annona — que inclui a graviola — a um tipo atípico de parkinsonismo. Estimativas apontam cerca de 15 mg de anonacina em uma fruta média e por volta de 140 microgramas em uma xícara de chá das folhas: doses isoladas pequenas, mas que preocupam pesquisadores pelo efeito de acúmulo em quem consome o chá com frequência e por longos períodos.

Isso não torna a graviola perigosa no seu uso alimentar comum — em sucos, doces e sorvetes, como é consumida tradicionalmente na Amazônia, não há registro de problema associado ao consumo eventual. O risco descrito pelos estudos está ligado ao uso medicinal, concentrado e contínuo, sobretudo entre pessoas que abandonam ou adiam tratamentos convencionais na esperança de uma cura alternativa. Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui orientação médica: pacientes oncológicos, gestantes, lactantes e pessoas com histórico de doenças neurológicas devem conversar com um profissional de saúde antes de usar a graviola como remédio, e ninguém deve interromper tratamento médico por conta própria.

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