BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou nesta segunda-feira (18) que as diferentes tecnologias adotadas pelos países são um desafio para o funcionamento de um sistema de pagamentos transfronteiriços.
"Nos experimentos que estão sendo feitos [nos países], não temos as mesmas tecnologias sendo usadas. Acho que coordenação é a chave se queremos que isso dê certo", afirmou em painel promovido pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) sobre moedas digitais de bancos centrais (CBDCs, na sigla em inglês).
A criação de moedas digitais entrou no radar de bancos centrais de todo o mundo. As Bahamas se tornaram um grande laboratório ao criar o dólar de areia (sand dollar, em inglês), a primeira moeda digital do mundo emitida por um banco central. Alguns países já lançaram seus projetos, incluindo a Nigéria. Ao longo do último ano, a China fez experiências com o yuan digital em várias cidades.
"CBDC pode ser o ecossistema ideal nesse novo cenário, estamos nos movendo em direção a esse sistema em que precisamos encontrar uma solução transfronteiriça", disse Campos Neto.
De acordo com o presidente do BC, as pessoas precisam de uma solução que tenha cinco características: seja rápida, barata, segura, transparente e aberta. Campos Neto disse também que o modelo só funcionará se houver interoperabilidade.
"A solução será encontrada pelo sistema privado se não tivermos nada melhor em um ano ou dois", afirmou.
No evento, Campos Neto não falou especificamente sobre o desenvolvimento do real digital. A primeira fase de testes do projeto piloto da moeda digital brasileira, sem interação com o público, estava prevista para o quarto trimestre deste ano, mas deve sofrer atrasos devido à greve dos servidores do BC.
O "pequeno adiamento" foi citado por Campos Neto em um evento na última semana. Mas, segundo ele, os planos de médio e longo prazo não serão afetados.
Diferentemente das criptomoedas, como bitcoin ou ethereum, a moeda digital emitida pelo BC seria uma extensão do real (ainda que não possa ser convertida em cédulas), assegurada e gerida pelo Estado e com previsão de uso em pagamentos de varejo.
Já os criptoativos não são regulados pela autoridade monetária e não são aceitos amplamente no comércio. Recentemente, Campos Neto afirmou que as criptomoedas têm hoje mais demanda como investimento do que como meio de pagamento.
No evento do FMI, o presidente do BC disse também que os protocolos de criptoativos podem mudar a intermediação financeira no futuro.
"Quando falamos em criptoativos, as pessoas estão olhando demais para os ativos, mas a beleza é a rede que está sendo criada. Os protocolos têm boas características que vão mudar a intermediação financeira no futuro", afirmou.
"Já está acontecendo de alguma forma, os protocolos estão diminuindo os custos dos bancos, são mais rápidos e transparentes, muitos podem incluir traçabilidade em coisas que hoje não podemos. No fim, menor custo e aumento de transparência geram inclusão financeira", completou.

