RIO - Em 2015, 1,5 milhão de trabalhadores brasileiros estavam impedidos de deixar o trabalho por terem algum tipo de débito financeiro com o empregador. A chamada servidão por dívida é uma das condições que caracterizam o trabalho análogo à escravidão e, para a o Organização Internacional do Trabalho (OIT), fere o conceito de trabalho decente. A maior parte, 948 mil, tinha algum débito relacionado à alimentação, 774 mil com transporte, 373 mil com instrumentos de trabalho e 266 mil com aluguel. Os dados são de pesquisa inédita divulgada pelo IBGE nesta quarta-feira, o suplemento Relações de Trabalho e Sindicalização.
A proporção de trabalhadores nessa condição é maior entre os contratados por intermediários (4,3% ou 420 mil empregados) do que os de contrato direto ( 2,5% ou 1 milhão).
A pesquisa também verificou junto aos entrevistados o grau de satisfação em relação às condições de trabalho encontradas no emprego frente às que foram previamente acordadas com a empresa. Apesar de o mercado de trabalho ter começado a sentir em 2015 os efeitos da recessão que assolou o país - a taxa média de desemprego pulou de 6,8% em 2014 para 8,5% e o número de trabalhadores ocupados reduziu em 3,7 milhões, para 94 milhões -, a avaliação dos entrevistados foi positiva.
Dos 51,7 milhões de empregados, 77% declararam estar satisfeitos ou muito satisfeitos com as condições de trabalho em relação ao que havia sido acordado. Os insatisfeitos eram 5,5%. O IBGE e a OIT estabelecem como ideal 100% de satisfação, dentro da classificação de trabalho decente, que deve ser para todos.
A satisfação é ainda maior entre o grupo de trabalhadores brancos, mais velhos, melhor renumerados e mais escolarizados.
— Quanto mais a pessoa ganha, mais ela é satisfeita com as suas condições — analisa Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Renda do IBGE.
Com relação às atividades econômicas, a indústria, por ser mais formalizada e organizada, tem o maior percentual de trabalhadores satisfeitos ou muito satisfeitos (79,2% do total ocupado no setor). Enquanto que, por razões opostas, este grupo é de 71%, o menos expressivo, na atividade agrícola. Em mais de 90% dos casos a jornada e o rendimento de trabalho eram igual ao acordado.
Entre os direitos usufruídos pelos 51,7 milhões de empregados de 16 anos ou mais de idade remunerados em dinheiro, a pesquisa observou que 58,6% (30,1 milhões) não recebiam auxílio-alimentação, 14,8% (7,6 milhões) não tinham flexibilidade de horário, 37,3% (19,1 milhões) não tinham acesso a processos de capacitação profissional e 51% (26,2 milhões) não recebiam benefícios sociais complementares. A flexibilidade de horário, considerada um fator importante no processo de conciliação com a vida familiar, cuidados com saúde e acesso a cursos e capacitação, alcançava 43,8 milhões (85,2%).
O acesso a processos de capacitação profissional chegou a 62,7% dos empregados remunerados com 16 anos ou mais de idade, com destaque para o Sul (69,7%) e menores percentuais no Nordeste (52,5%) e Norte (56%). A salubridade e a segurança no ambiente de trabalho foram avaliadas por empregados remunerados em dinheiro do setor privado com pelo menos três empregados no empreendimento em que trabalhavam. Do total, 71,1% se disseram satisfeitos ou muito satisfeitos, enquanto 6,4% se disseram insatisfeitos.

