Início Economia Presidente do BC ataca proposta de duplo mandato na autarquia
Economia

Presidente do BC ataca proposta de duplo mandato na autarquia

BRASÍLIA - Depois da surpresa com a proposta do líder do governo no Senado, , de dar ao Banco Central um duplo mandato (com metas de inflação e de crescimento), a autarquia passou a rebater publicamente a ideia. O desconforto dos técnicos nos bastidores foi explicitado pelo , , que começou a falar abertamente que é contrário à instituição de um objetivo que não está no seu domínio. E deixou claro que pode abrir espaço para interferência política na atuação da autoridade monetária. Ele ainda passou a dar sinais de que os juros, que estão na mínima histórica, podem voltar a cair.

Em entrevista à radio CBN, nesta segunda-feira, ele afirmou que é um erro porque uma meta de crescimento tem de ser de todo o governo e não do BC. E ainda argumentou que a autoridade monetária já olha para o crescimento quando define os juros.

— Aqui tem um equívoco porque meta de crescimento, meta de desemprego, é uma meta do governo todo. É uma meta da política fiscal e de vários ministérios. É uma meta de todo mundo porque crescimento depende de produtividade e da capacidade de ser mais eficiente.

Sem citar interferência política no governo anterior, Ilan Goldfajn, disse que poderia haver um prejuízo para a condução das decisões para o controle da inflação. Segundo ele, poderia abrir espaço para uma pressão sobre o BC.

— Não dá para o Banco Central ter duas metas simultânea que podem se confundir. Você sabe como é o Brasil. Esse ano é um ano eleitoral, quero que você cumpra a de crescimento e esquece a de inflação. Não dá. Vamos ser bem claros — argumentou o economista.

Questionado sobre o projeto de autonomia da autarquia que deve ser apreciado pelo Congresso Nacional, ele disse que o BC já tem na prática uma certa autonomia, mas que se a lei aprovada aumenta a previsibilidade da política de controle da inflação. Salientou que isso pode significar juros menores para o consumidor.

— Se a autonomia for aprovada por lei, há uma redução dos prêmios de risco e, portanto, dos juros também.

Sobre cortes adicionais na taxa básica de juros (Selic), que está em 6,75% ao ano, Ilan não se comprometeu com uma nova queda na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) no dia 21 deste mês. No entanto, ele deu sinais de que a ideia de pode vir a cortar novamente os juros não é descabida.

— A gente se dá a liberdade para esperar a próxima reunião. O que eu posso dizer é que as últimas taxas de inflação que vieram, de fato, vieram mais baixas do que nós estávamos esperando. Surpreendeu todo mundo inclusive o Banco Central.

Ao responder uma pergunta de um ouvinte sobre se o patamar de juros atual seria um novo juro de equilíbrio da economia, Ilan disse que gostaria que fosse, mas que o Brasil precisa encarar as reformas _ inclusive a da previdência _ para que a Selic fique onde está.

— As contas públicas precisam ficar em ordem para que a gente continue com essa taxa básica por mais tempo — falou o presidente do BC.

— Nos podemos ter conjunturalmente taxa menor, mas para manter por muitos anos, vamos ter de ajustar as contas públicas.

Disse acreditar que a baixa na taxa básica levará a uma queda das taxas bancárias para a população. Citou algumas mudanças que o BC tem feito para diminuir os juros para o tomador final como a mudança no crédito rotativo do cartão de crédito, a expectativa de uma auto-regulação da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) na taxa de cheque especial, a aprovação do cadastro positivo e os estímulos a pequenos e médios bancos e cooperativas para aumentar a competição.

Argumentou que se conseguir estabilizar a Selic no patamar atual por alguns anos, haverá uma “revolução” no sistema bancário, que pode se refletir em juros menores e até em queda nas taxas de administração de investimento.

— Não há dúvida que muda tudo.

Sobre a decisão do presidente americano, Donald Trump, de sobretaxar o aço importado ele disse que é prejudicial não só para o Brasil, mas para o mundo todo. Falou que a guerra tarifaria e aumento de protencionismo vão ter impacto sobre a economia, mas falou que os Estados Unidos podem rever a decisão.

— Ao longo do tempo, não é coisa de semanas mas de anos, porque vai ter retaliação da China e da Europa. Com a retaliação, tem a chance de o governo americano recuar. Dependendo da reação, é possível que volte atrás.

Mais uma vez, ele deu um aviso sobre aplicações em criptomoedas. Falou que é um investimento que não é garantido e é perigoso. No entanto, descartou, por ora, a possibilidade de criar uma taxação específica para a aplicação.

— No momento não — falou o presidente do BC, que ainda fez um apelo:

— Por favor, ninguém hipoteque sua casa para investir em algo tão volátil.

Perguntado sobre a possível candidatura do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, nas eleições majoritárias, ele evitou comentar. Disse apenas que quer continuar no BC. Ele é cotado para ser ministro caso Meirelles seja candidato.

— Cabe ao Banco Central ser cada vez mais neutro e técnico. Eu estou bem no Banco Central e tenho trabalho a cumprir. Isso tudo é uma tarefa inacabada e que eu gostaria de continuar fazendo. Ninguém bateu em porta nenhuma e por enquanto, eu continuo fazendo o meu trabalho.

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?