RIO - O presidente executivo da Volkswagen Caminhões e Ônibus, Roberto Cortes, não vê incoerência entre o programa de incentivos do setor automotivo Rota 2030 e o discurso do futuro ministro da Fazenda, Paulo Guedes, de reduzir gastos. O programa depende da aprovação de uma medida provisória, no próximo mês. “Não vejo motivo para que não progrida”, diz Cortes, que está à frente da segunda maior fabricante de ônibus do país. No segmento de caminhões, a empresa disputa a liderança mês a mês com a Mercedez. O executivo também defende a “abertura comercial responsável” e espera que o Mercosul, destino de um quarto das exportações da companhia, não seja enfraquecido no governo de Jair Bolsonaro (PSL).
Pelo que temos visto, ele será um presidente pró-negócios, fala em gerar emprego, renda. Isso é o que nos interessa. Ele também fala em acordos comerciais em que tenhamos um ganha-ganha. Tem que haver mais abertura comercial de forma responsável. Não se pode abrir da noite para o dia.
Nossas vendas para os países membros do Mercosul estão em 26,4% de nossas exportações este ano. O que entendi é que ele (Paulo Guedes) não procura parceria comercial baseada em ideologia. A gente espera que não haja retrocesso em nada. Os acordos comerciais que aqui estão, seja com o Mercosul, a Argentina ou o México... retroceder não faria sentido. Temos que abrir o horizonte com previsibilidade.
O Rota 2030 é uma política industrial para o setor automotivo, como sempre tivemos. O programa não contempla qualquer subsídio adicional. Espero que continue sendo discutido e que, até o fim do ano, tenhamos esse plano aprovado. Nada mais é que assegurar o mínimo para que a indústria automotiva tenha uma base sólida, sem muitos altos e baixos para os próximos anos. Esse programa foi feito com todos os setores do mercado: com fornecedores, importadores, produtores locais. Não vejo motivo para que não progrida.
O programa tem incentivo, claro, para uma indústria automotiva investir aqui e não na China ou na Índia. O investidor precisa de algumas pré-condições, mas não que o governo tenha que dar dinheiro. Não há subsídios, há incentivos para que a minha empresa invista no Brasil e não na China. A contrapartida para o governo é vantajosa: aumento de impostos e do emprego, desenvolvimento da inteligência da engenharia brasileira. É uma política industrial, não subsídio.
Tudo que for tabelamento, controle tem prazo de validade. A tal da mão invisível do mercado é que diz quanto deve ser o preço. Isso dentro de uma ótica liberal, com competição. Somos a favor da política de liberar (preços) sem controle.
Competição é o nome do jogo. Ela é que traz preço, aumento de competitividade.
O Brasil vem de um período muito difícil, com uma redução do PIB de 7% em três anos. A partir de meados do ano passado, passamos a inverter essa curva. As vendas no setor de caminhões e ônibus crescem 50% no acumulado de nove meses este ano. As da Volks, 53%.
O que vende caminhão é o PIB. O frotista volta às compras quando há uma expectativa de que vai subir a demanda. Com Bolsonaro, percebemos uma confiança dos empresários e compradores, que indicam sua vontade de investir e consumir. Os fundamentos da economia são sólidos. Para o ano que vem projetamos crescimento de dois dígitos, mas não arriscaria quanto exatamente. Mesmo com o crescimentos estamos longe do pico de 2011 (segundo a Anfavea, naquele ano foram 207.417 licenciamentos de ônibus e caminhões. Este ano foram 63.262 ate setembro)
Antes da recessão produzíamos em Resende (onde fica a fábrica da empresa) com três turnos. Hoje produzimos com um turno e uma hora extra. Antes de qualquer decisão também precisamos acompanhar o que acontece na Argentina, que é nosso principal destino de exportações. O que posso dizer é que matemos nosso plano de investimentos, de R$ 1,5 bilhão para o período de 2017 a 2021.
Não, os investimentos são ficados no desenvolvimento de novos produtos, novas tecnologias e conectividade. O ônibus elétrico, por exemplo, será lançado em 2021. E lançaremos uma plataforma ano que vem que vai oferecer 20 serviços, alguns pagos outros gratuitos, para os donos de caminhão.

