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Neste ano, 39 instrutores de funcional já foram multados na orla do Rio. Saiba por quê

Os treinos funcionais transformaram as praias do Rio em uma grande academia ao ar livre. Por não utilizarem materiais muito pesados ou sofisticados, a montagem e a desmontagem dos circuitos são bastante facilitadas, o que eleva o número de profissionais oferecendo o serviço. Já do ponto de vista do cliente, é uma aula divertida, intensa e variada, quase sempre realizada em um belo cenário.

No entanto, para que a atividade não se torne prejudicial, é importante que os treinos sejam orientados por profissionais capacitados e habilitados para tal função. O que nem sempre acontece. No primeiro semestre de 2017, o Conselho de Educação Física da 1ª Região (CREF-RJ/ES) constatou 39 profissionais irregulares a frente de atividades físicas na orla.

Em uma das ações, o órgão flagrou Claudio Antônio Souza, de 48 anos, que orientava treinos funcionais na praia do Recreio, na Zona Oeste. Estudante de Educação Física do 3º período, ele alega não ter faltado com ética e transparência com os seus alunos, já que sempre deixou claro a sua condição.

— Fui triatleta durante 11 anos, sempre muito criterioso com a iniciação dos atletas. Uso os aprendizados obtidos durante a minha carreira. Estruturei minha equipe e conto com uma profissional formada e devidamente registrada no Conselho para evitar problemas. Não oriento atividades que ofereçam riscos à saúde — defende-se.

Para quem busca no exercício fun

As denúncias são sempre anônimas e chegam por meio do disque-denúncia localizado na página do Conselho. Após processo de investigação, as diligências são realizadas no intuito de coibir as irregularidades de empresas e profissionais. A legislação indica que os professores devem ser bacharéis em educação física, além de estar em dia com as taxas, anuidades e com a documentação necessária. A pena para os que descumprem a lei vai de 15 dias a três meses, podendo ser substituída por prestação de serviços sociais ou pagamento de cestas básicas.

Segundo a Secretaria municipal de Fazenda, as assessorias esportivas devem ser legalizadas por meio de alvará de autorização transitória, válido por um ano. O documento pode ser solicitado no Portal Carioca Digital. Dados da pasta indicam que atualmente 250 licenças estão concedidas para o esporte na orla. Desse total, 60% estão na Zona Sul.

Mais de duzentos flagrados no estado

Os profissionais que atuam nesses locais devem obedecer a alguns parâmetros, como horário de funcionamento e espaço ocupado. A Coordenadoria de Licenciamento e Fiscalização e a Coordenadoria de Gestão do Espaço Urbano da secretaria realizam um trabalho de fiscalização contínuo na orla. Uma vez identificada alguma irregularidade, o profissional poderá ser notificado, multado ou até mesmo ter seu material apreendido. As licenças podem ainda ser revogadas, por exemplo, se houver incômodo à vizinhança.

O problema não se limita à orla carioca. Em todo o estado, 211 profissionais irregulares foram flagrados a frente de atividades físicas, 177 só na Região Metropolitana. Se considerados apenas os casos reincidentes, são 17. O departamento de fiscalização constatou ainda 520 irregularidades em estabelecimentos do estado. Desses, 172 não possuíam registro de Pessoa Jurídica, 173 não tinham responsável técnico, 104 estavam desprovidas de profissionais e 71 profissionais atuavam fora de sua área.

A alta ocupação das praias e a grande procura nas academias e centros de treinamento revelam uma tendência nacional. Segundo relatório anual do Ministério da Saúde, 37,6% dos adultos brasileiros se exercitaram pelo menos 30 minutos por dia em 2016. Além disso, o país é o segundo maior mercado de academias em número de estabelecimentos, com 32 mil unidades, segundo a International Health, Racquet & Sportsclub Association (IHRSA 2016), associação internacional do mundo fitness.

Especialista alerta sobre os perigos

Graduado em Educação Física e especialista em Gestão, Felipe Goulart afirma que uma orientação inadequada pode lesionar a musculatura ou a parte óssea do praticante:

— Se a intensidade do exercício for muito elevada, existem sérios riscos para o sistema cardíaco. Sem o conhecimento técnico necessário, a pessoa não atingirá seus objetivos, pois um leigo não é capaz de montar um planejamento de atividades.

Segundo ele, não é a falta de interesse que leva as pessoas a treinarem com profissionais despreparados, mas sim, a falta de conhecimento:

— Poucas pessoas sabem que existe um Conselho que regula as atividades do profissional de educação física. E os orientadores querem o caminho mais fácil. Ao invés de frequentarem uma faculdade e se graduar, simplesmente começam a ministrar treinos, sem qualquer embasamento, e colocam em risco a saúde da população.

Professor de educação física e personal trainer, Filipe Canuto também aponta o alto risco de lesões caso a pessoa não tenha a competência de orientar as atividades físicas. Segundo ele, ser ex-atleta não é suficiente para se tornar um educador físico, já que muitos conceitos e teorias são transmitidos durante os quatro anos de faculdade.

— O Rio de Janeiro é uma cidade que convida para o exercício ao ar livre, pelo clima e pelas paisagens belíssimas. Mas deve-se ficar atento à legitimidade dos profissionais. A gente nunca sabe quem realmente está habilitado. É importante que o próprio aluno questione o registro nas primeiras conversas, antes de iniciar as aulas e treinamentos.

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