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Naufrágio apagou para sempre os diários de uma das primeiras grandes expedições científicas ao rio Negro

Há 162 anos, o naufrágio que matou o poeta Gonçalves Dias também levou ao fundo do mar os registros de sua viagem científica pelo rio Negro, no Amazonas.

Naufrágio apagou para sempre os diários de uma das primeiras grandes expedições científicas ao rio Negro
O rio Negro, que corta Manaus, foi palco de uma das primeiras grandes expedições científicas aos povos indígenas da região, no século 19. Foto: Daniel Magalhães / Pexels

Foi num dia como hoje, 3 de novembro, no ano de 1864, que um naufrágio na costa do Maranhão apagou para sempre boa parte do primeiro grande registro científico feito sobre os povos indígenas do rio Negro, o mesmo curso de água que corta Manaus até hoje. A bordo do veleiro Ville de Boulogne, que voltava da Europa após 53 dias de travessia, estava o poeta Gonçalves Dias, único passageiro do navio. Na madrugada daquele dia, a embarcação bateu em um banco de areia e partiu-se ao meio; esquecido em sua cabine durante a evacuação, ele morreu afogado antes de ser resgatado, e seu corpo nunca foi encontrado.

Pouco lembrado por esse episódio, Gonçalves Dias não era apenas o autor de "Canção do Exílio". Entre 1859 e 1861, ele integrou a Comissão Científica de Exploração do Império, viajando pelo rio Negro, no coração do que hoje é o Amazonas, para estudar de perto os povos indígenas da região. Ao longo da expedição, registrou anotações sobre as línguas indígenas faladas às margens do rio e reuniu peças etnográficas que viriam a enriquecer o acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

A maior parte desse material, porém, nunca chegou a ser publicada. Diários, relatórios e notas de campo sobre a viagem ao rio Negro seguiam com o poeta rumo ao Brasil quando o navio naufragou, e presume-se que se perderam ali, junto com ele. O que sobrou são fragmentos: alguns objetos que já haviam sido enviados antes à capital do Império e referências em cartas e relatos de outros membros da comissão.

A perda é lembrada até hoje por pesquisadores que estudam a história da etnografia brasileira como um dos primeiros grandes esforços de documentar, de forma sistemática, os povos que viviam às margens do rio Negro antes da fundação de boa parte das cidades que hoje compõem o Amazonas. Mais de 160 anos depois, o episódio segue como um lembrete de como registros sobre a história indígena da região podem se perder no caminho — algo que voltou a acontecer décadas mais tarde, quando um incêndio destruiu grande parte do acervo etnográfico do próprio Museu Nacional, em 2018.

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