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Análise: Impasse poderá levar Itália de volta às urnas com campanha agressiva

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RIO E ROMA — Seguindo o seu já nada raro roteiro de rápida ascensão e desmoronamento de projetos políticos, a Itália agora se vê inclinada a um cenário diametralmente oposto ao que se previa há poucos dias. Depois que o Gabinete idealizado por populistas caiu por terra, devido a uma impactante rejeição pelo presidente Sergio Mattarella do escolhido para o Ministério da Economia, o novo incumbido de formar um governo, desta vez tecnocrata e apenas interino, é o economista e ex-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) Carlo Cottarelli. Ele, porém, deverá encontrar um obstáculo quase certamente intransponível no necessário voto de confiança do Parlamento — dominado pela xenófoba Liga e pelo antissistema Movimento Cinco Estrelas (M5S), frustrados nas horas finais da expectativa para assumir o poder. O cenário poderia forçar novas eleições já neste ano, guiadas por uma dura batalha entre europeístas e eurocéticos, para a qual os populistas já parecem se preparar, enquanto convocam marchas de protesto.

Não demorou para que Luigi Di Maio, líder do M5S, e Matteo Salvini, o número um da Liga, chamassem de “um ataque à democracia livre” a rejeição de Mattarella ao seu indicado à pasta da Economia, Paolo Savona, renomado ex-ministro a favor da saída italiana da zona do euro. As críticas se repetiram entre líderes populistas do exterior, como a dirigente da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, que em seu Twitter escreveu: “A União Europeia e os mercados financeiros confiscam novamente a democracia. O que acontece na Itália é um golpe de Estado, um assalto por instituições ilegítimas. Diante desta negação da democracia, a ira dos povos cresce em toda a Europa!”

Convocando protestos e falando em pedir o impeachment de Mattarella por traição — processo já iniciado três vezes no país, mas nunca bem-sucedido — os dois partidos mais votados dizem que sugeriram como alternativas para a pasta econômica Armando Siri e Alberto Bagnai, membros da Liga também críticos à União Europeia (UE). A Presidência negou, afirmando que as legendas recusaram um meio-termo para levar à frente o seu governo. A pequena margem de negociação com o , de fato, é uma plataforma muito popular de M5S e Liga, embora a governabilidade inevitavelmente passe por concessões e alianças no sistema político italiano, que tem 945 legisladores.

Três especialistas ouvidos pelo GLOBO explicaram que a decisão de Mattarella é constitucional. Responsável pela unidade da nação, o presidente tem a prerrogativa de não aceitar os integrantes de um novo Gabinete. Mas esta é uma escolha apenas para casos excepcionais, em que, na sua interpretação, houver ameaça ao interesse público. Já foi usada ao menos outras três vezes — a última em 1994, quando o então premier Silvio Berlusconi propôs ao presidente Oscar Luigi Scalfaro nomear o seu advogado, Cesare Previti, ministro da Justiça. Agora, Mattarella alegou que “era seu dever proteger as economias dos italianos”, já que “a incerteza sobre o euro alarma investidores e poupadores”.

— Di Maio e Salvini poderiam essencialmente ter razão, mas Mattarella usou suas prerrogativas de maneira formalmente correta — explica Roberto Segatori, professor de Sociologia dos Fenômenos Políticos da Universidade de Perugia.

Já para o professor Fulco Lanchester, da Universidade La Sapienza, em Roma, o impasse em torno de Savona parece ser não mais do que um pretexto para dissolver o Gabinete populista. De um lado está Mattarella, movido pelos ideais europeístas; de outro, M5S e Liga, antigos rivais forçados a aliar-se para obter a maioria no Parlamento.

— Alguns acham que Salvini quis chegar ao [“grande discussão para pôr fim a um já antigo desacordo”, no dicionário Cambridge] porque poderia ter grande afirmação em uma nova votação, talvez levando os votos de Di Maio e Berlusconi — disse Lanchester. — Já vimos antes esta combinação de crise econômica e governos nomeados por presidentes, com um círculo vicioso que pode ser perigoso à democracia. Se formos a eleições, teremos todos contra Mattarella, o chefe de Estado, que será o alvo de toda a aversão pública.

Caso obtenha o aval parlamentar, Cottarelli deverá liderar até uma nova eleição em 2019, à qual diz que não concorrerá. Mas, se não conseguir, um novo pleito já poderia ocorrer a partir de agosto, embora a impressão para as camadas populares seja a de que ir às urnas é inútil. As figuras que agradam às massas insatisfeitas, e são por elas eleitas, não chegam ao centro do poder desde 2011, travadas pela falta de conciliação com rivais: na Itália, o último premier eleito para o cargo foi Berlusconi.

Frente aos desafios da integração europeia, como a gestão da imigração e da moeda única — muitos italianos, guiados por líderes populistas, julgam-se “reféns econômicos” da Alemanha, a potência mais beneficiada pela adoção do euro — a rejeição de um Gabinete antissistema joga luz sobre as demandas populares nacionais não atendidas pelo bloco. Ontem, o Nobel de Economia Paul Krugman lamentou que “as instituições europeias sofram com a falta de legitimidade por causa de seu déficit democrático”.

Enquanto alguns analistas acreditam que a tensão nas ruas pode crescer em protestos nos próximos meses, o professor Giuseppe Moro, da Universidade de Bari, aponta que o terreno é fértil para tornar ainda mais volátil o cenário político italiano:

— Todas as instituições republicanas estarão envolvidas na polêmica política. E isso pode ser perigoso em um país já profundamente dividido.

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