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Na Colômbia, 2º turno será resolvido por eleitores de centro

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RIO — Passado o primeiro turno nas eleições presidenciais colombianas, fica a dúvida: terá o primeiro colocado, o candidato da direita, Ivan Duque, uma vitória fácil? Se por um lado, como esperado, a alta votação de Duque, com 39,1%, demonstra o poder de seu mentor, o ex-presidente Álvaro Uribe, por outro, com 25%, o ex-guerrilheiro Gustavo Petro conseguiu colocar a esquerda em uma briga de que, historicamente, tem ficado de fora. Analistas concordam que a batalha parece ganha para Duque, mas nem todos acreditam que será uma vitória fácil. O eleito será aquele que melhor conseguir capitalizar os eleitores de Sergio Fajardo, da Coalición Colombia, que conseguiu 23,7% dos votos.

— A diferença do primeiro turno foi alta, e Duque tem muita propulsão, o que lhe dá espaço para uma vitória ampla — afirma ao GLOBO Katherine Aguirre, economista colombiana e pesquisadora associada do Instituto Igarapé. — Mesmo assim, estas primeiras horas serão decisivas para Petro, principalmente se obtiver o apoio dos verdes.

ASSOCIAÇÃO COM CHAVISMO ATRAPALHA PETRO

Durante a campanha, ainda que tenha se declarado a favor de dar continuidade ao acordo de paz — distanciando-se de Duque e se aproximando de Petro — o professor, de 61 anos, garantiu que não apoiaria nenhum dos dois candidatos em um eventual segundo turno em que ficasse de fora, o que indica que ele pode deixar seus eleitores livres para escolher. Ontem, limitou-se a dizer:

— Temos que fugir da Colômbia dos extremos. Vamos continuar trabalhando para unir o país, e o que nos une é a educação.

Duque foi claro na busca de apoios. Além de elogiar a campanha de Fajardo, no discurso de vitória, destacou ainda algumas das propostas do ex-vice-presidente Germán Vargas Lleras, e até do liberal Humberto De La Calle, em quarto e quinto lugar, respectivamente.

— Ele (Fajardo) fez uma campanha com questões importantes para o país e nos aproximamos na ideia de trabalhar pela educação, pela ética. Ele tem um grande senso de colaboração cívica — disse, a seguidores.

Ainda que Petro tenha sido mais cauteloso, fontes da campanha afirmam que, desde domingo, iniciou contatos com setores que apoiaram Fajardo, como o Polo Democrático e o Partido Verde. Para Aguirre, o maior desafio será o medo que os eleitores de centro ainda têm da esquerda.

— É a primeira eleição sem o conflito armado e, consequentemente, sem o medo das Farc. Por isso, temas como a redução da desigualdade e questões sociais entraram na campanha — lembra. — Mesmo assim, ainda há um medo muito grande da esquerda no país. Mesmo que Fajardo apoie Petro, parte de seus eleitores de centro devem votar em Duque, precisamente pelo medo de um candidato da esquerda.

A alta rejeição a Petro, que tem 44% de opinião negativa — Duque tem 28% de imagem desfavorável — é outro desafio. Petro arrasta uma imagem negativa por suas simpatias do passado com o chavismo, impopular na Colômbia. E, mesmo que na campanha tenha se mantido afastado do atual governo de Nicolás Maduro, a oposição usou e abusou do termo “castro-chavista” para desqualificá-lo.

— O resultado do primeiro turno indica que os eleitores de centro ainda são muito fortes no país. E essa classe média, principalmente das grandes cidades, tem medo de Petro, principalmente pela mensagem de seus rivais que o associaram a Hugo Chávez, e tem sido eficaz — destaca o vice-diretor de Política da Americas Society, Brian Winter. — Além disso, milhares de refugiados chegam ao país vindos da Venezuela e é impossível ignorar essa realidade. É uma comparação exagerada, mas que vem funcionando.

Ao mesmo tempo, no entanto, Winter lembra que o grupo também se incomoda com a associação de Duque a Uribe.

— Por mais que muitos colombianos apreciem o trabalho feito por Uribe em sua Presidência, que trouxe melhorias na economia e reduziu a violência, lembram dos abusos por parte das Forças Armadas e das autoridades de segurança. É um período que incomoda, e poucos querem repetir. Será uma batalha entre o medo de se transformar numa segunda Venezuela e o de voltar a um período turbulento na história colombiana. Se Petro for capaz de transmitir uma imagem mais moderada e de centro, pode ser um segundo turno interessante.

E se Duque ganhar, o acordo de paz corre perigo? Analistas acreditam que sim.

— Um dos pontos centrais da campanha do Uribismo e de Duque é a oposição ao acordo. No segundo turno, estamos quase no mesmo cenário do referendo pelo “sim” ou pelo “não” — diz Aguirre.

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