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‘Combate à notícia falsa deve ser parte da política de segurança’

BERLIM — Os países da União Europeia enfrentam o desafio de uma guerra de desinformação, afirma Jakub Janda, vice-diretor da European Values (Valores Europeus), agência criada em 2005, em Praga, com o objetivo de identificar fake news, ou notícias falsas. “A desinformação é uma arma usada por países mais fracos para compensar sua inferioridade econômica em comparação com o Ocidente”, disse Janda em entrevista ao GLOBO, apontando semelhanças entre os métodos usados hoje pelo Kremlin e os da KGB na Guerra Fria. Segundo ele, “há o bombardeio real com notícias falsas ou manipuladas” — método que teria sido usado com o objetivo de influenciar a votação do Brexit, as eleições americanas e os pleitos europeus deste ano. A European Values trabalha com a East StratCom, que faz parte da UE, para o combate às notícias falsas.

Com exceção da Polônia, dos Países Bálticos e da Escandinávia, os recursos investidos no combate às notícias falsas são bastante limitados. São poucos especialistas. E são milhares de notícias em mais de uma dezena de idiomas. Para que houvesse um controle mais eficiente, seria necessária uma rede com unidade em cada país da UE. O combate às notícias falsas deve ser parte importante da política de segurança porque a desinformação é uma ameaça real.

Há diferentes aspectos, mas a chanceler federal alemã costuma criticar a política agressiva de Moscou. Às vezes, também, a guerra de desinformação tem como principal objetivo criar confusão.

Direta e indiretamente. O Caso Lisa (adolescente de origem russa que teria sido violentada por um refugiado em Berlim) virou uma questão política graças à influência de Moscou. Não temos dúvida de que a Rússia procura influenciar as eleições da França e da Alemanha. Tem lançado boatos contra o candidato pró-UE Emmanuel Macron. O objetivo é ajudar (a líder da extrema-direita) Marine Le Pen, admiradora de Putin. No caso do referendo sobre a Ucrânia (se os holandeses eram ou não a favor da associação do país à UE), a campanha de desinformação de Moscou, através de uma dezena de jornais, revistas e internet, teve um papel decisivo na vitória do “não”. Em geral, são ajudados os partidos contrários à UE porque Moscou tem interesse no agravamento da crise do bloco.

Todo tipo de notícia falsa é usado para prejudicar o candidato porque ele é pró-UE. Há também o risco de Putin usar sua influência com a Turquia fazendo com que novamente o drama humanitário na Grécia exija uma resposta do bloco (como em 2015, situação que prejudicou a popularidade de Merkel). Sem dúvida, isso ajudaria os partidos populistas de extrema-direita. Outro método são os ciberataques.

A Rússia atua fortemente, mas não é a única fonte. Também outros países autoritários e até organizações terroristas, como o Estado Islâmico, fazem o mesmo. O EI usa esse método para conseguir convocar jihadistas, tendo como alvo muçulmanos europeus. Mas os ataques contra nações da Europa Ocidental partem, sobretudo, de Moscou. Além do lançamento de notícias falsas, são usados métodos mais agressivos, de intimidação. Registramos muitas ações concretas por ocasião da invasão da Ucrânia. Outro método é o uso de “cavalos de Troia”. O governo russo apoia a extrema-direita, mas também a extrema-esquerda. Em muitos casos, orquestra operações econômicas com o objetivo de atingir metas políticas e geopolíticas. Um exemplo está na maneira como a Rússia adquiriu domínio no setor energético da Sérvia ou como arquiteta o (oleoduto) Nordstream 2, que teria como efeito aumentar a dependência alemã de energia da Rússia.

Não, mas a tática lembra a da KGB. O objetivo é enfraquecer inimigos. Manipular o Ocidente, seus políticos e sua sociedade. Nesse trabalho, o Kremlin é bem-sucedido, enquanto que a resposta ocidental é quase zero. A desinformação é como uma arma dos países mais fracos para compensar a inferioridade econômica em comparação com o Ocidente.

Não neutralizamos, nem temos essa ambição. Nosso objetivo é apenas o de localizar e identificar como tal, para evitar que a notícia falsa atinja o objetivo dos seus autores, a desinformação.

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