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Congresso dos EUA avalia reimpor sanções a militares de Mianmar

NAYPYDAW e WASHINGTON — Num momento em que a crise de refugiados rohingyas é agravada pelas perseguições militares à minoria muçulmana em Mianmar, a comunidade internacional começa a reagir com mais dureza. No Congresso dos EUA, congressistas introduziram legislação propondo a retomada de sanções aos líderes militares do país asiático. Enquanto isso, somente nesta quinta-feira a líder civil birmanesa, Aung San Suu Kyi, visitou pela primeira vez a região onde o Exército faz uma campanha de repressão chamada pela ONU de “limpeza étnica”. Mais de 900 mil rohingyas fugiram para Bangladesh por causa dos abusos por soldados e extremistas budistas.

Dois projetos de lei conjuntos de senadores e deputados americanos propuseram reaplicar sanções econômicas e restrições de viagem a altos funcionários militares, que ainda mantêm uma forte participação no governo. Estas sanções haviam sido suspensas no ano passado, quando Mianmar elegeu a coalizão de Suu Kyi — Nobel da Paz em 1990 pela perseguição sofrida em sua luta pela redemocratização do país — numa eleição considerada transparente, pondo fim a cinco décadas de ditadura militar. Congressistas propuseram, ainda, barrar qualquer apoio aos militares até que responsáveis por crimes contra a minoria sejam julgados e punidos. Também seriam reimpostas proibições à importação de pedras preciosas de Mianmar e a parcerias com empresas do Exército local. As punições não atingem a parte civil do governo, tampouco Suu Kyi, mas são vistas como um “empurrão” para que ela atue mais.

“Este projeto ajudará a tornar claro para funcionários birmaneses que haverá consequências para seus crimes contra a Humanidade”, afirmou o senador democrata Ben Cardin, coautor da proposta do Senado, apresentada junto a colegas como o republicano John McCain.

Os rohingyas são a maior população apátrida do mundo desde que a junta militar retirou sua nacionalidade birmanesa em 1982. Alvos de xenofobia, não têm documentos de identidade nem acesso ao mercado de trabalho e aos serviços públicos, como escolas e hospitais. Desde outubro de 2016, o Exército reprime protestos insurgentes na região e é acusado de agressões e atos como roubos, estupros, destruição de casas e até massacres. Só nos últimos seis meses, mais de 600 mil rohingyas fugiram para Bangladesh.

Criticada no exterior pelo silêncio inicial e a ação mínima frente aos abusos, Suu Kyi não falou à imprensa sobre a crise nem visitou as regiões mais afetadas, optando por se reunir com empresários a favor do desenvolvimento econômico da região, cujo índice de pobreza é de 78%.

— Meus avós e parentes nasceram e morreram nesta terra. Os rohingyas vivem aqui há gerações — lamentou à AFP um pai de família rohingya sob anonimato.

O alto comissário da ONU para os Refugiados, Filippo Grandi, não poupou críticas pela ineficácia da comunidade internacional em frear a crise.

— Estas pessoas (os rohingyas) não podem permanecer apátridas porque isto as expõe a discriminação e abusos — questionou Grandi diante do Conselho de Segurança, lamentando o aumento brusco do número de refugiados em Mianmar e em outros países. — Nos tornamos incapazes de negociar a paz?

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