Início Mundo ‘Homem-bomba ou atacará nos EUA?’: a vida de um americano no EI
Mundo

‘Homem-bomba ou atacará nos EUA?’: a vida de um americano no EI

ALEXANDRIA, EUA — Um jovem americano que viajou despercebido pelo território controlado pelo Estado Islâmico na Síria, e fugiu 3 meses depois, disse que estava “curioso” sobre o modo de vida sob o regime terrorista.

— Eu sei que há sempre dois lados para uma história — disse Mohamad Khweis, de 27 anos, que nasceu e cresceu na Virgínia e foi capturado no Iraque em março de 2016. — Eu só queria ver o outro lado.

Suspeitos de terrorismo raramente são julgados e quase nunca testemunham, mas Khweis tomou posição nesta semana em um tribunal federal em Alexandria (Virgínia), onde é acusado de apoiar o Estado Islâmico. Os oficiais não puderam nomear nenhum outro americano que tenha testemunhado em seu próprio julgamento de terrorismo.

O relato de como ele entrou e saiu do território do Estado Islâmico, juntamente com os documentos apreendidos em Mosul no início deste ano e produzidos no julgamento, oferecem uma visão rara do funcionamento interno da organização terrorista. Ele também disse que identificou para os agentes do FBI três franceses que viajaram com ele da Turquia para a Síria, bem como um americano que se juntou a uma unidade de elite dentro do Estado Islâmico voltada para ataques de integrantes à seus países de origem.

Khweis descreveu com detalhes um questionário feito a ele com perguntas que incluíam o número que ele calçava, habilidades que possui e sua “especialidade antes da jihad”. Ele teve de fazer exames de sangue para hepatite B e HIV. E, como disse ao FBI, foi perguntado se seria um homem-bomba ou cometeria um ataque terrorista em seu país natal.

Na Virgínia, sua vida era comum. Se formou na Northern Virginia Community College e antes de viajar, trabalhou como motorista em um serviço compartilhado de transporte para pessoas com deficiência. No depoimento, explicou como artigos on-line lhe deram um roteiro para o Estado Islâmico, embora tenha procurado minimizar seu próprio planejamento. Khweis declarou que havia parado em dois países europeus antes de se dirigir para a Turquia. Foi quando pegou um ônibus para a cidade fronteiriça de Gaziantep, onde começou a se comunicar com os facilitadores do Estado Islâmico no Twitter.

Seu primeiro perfil, "fearislove1", não recebeu muita resposta. riou então uma conta com o nome "IAgreenbirdIA", uma referência ao martírio que ele achava que seria mais "atraente". Usou vários aplicativos de telefone criptografados para se comunicar e foi buscado em um hotel no meio da noite.

Do hotel, foi levado em um táxi com outros quatro recrutas para a fronteira, onde foram orientados a atravessar caminhando para não serem detectados. Por causa das minas terrestres, o grupo foi orientado a caminhar nas trilhas dos carros, de acordo com informações de um agente do FBI, Brian Czekala.

Uma vez na Síria, o grupo foi apanhado em um SUV por um homem turco que lhes disse para colocar seus telefones no modo avião e remover as baterias. Khweis, como outros recrutas, foi perguntado na chegada à Síria sobre sua data de nascimento, tipo sanguíneo, apelido, país de origem, cidadania e outros detalhes. O grupo terrorista manteve registros meticulosos, muitos dos quais foram apreendidos durante a captura do exército iraquiano de partes de Mosul no início deste ano. Uma cópia da planilha computadorizada mostrada no tribunal incluia uma "mesada" paga para cada jihadista.

— É um tesouro para pesquisadores que estão tentando entender isso — disse Seamus Hughes, vice-diretor do Programa de Extremismo da Universidade George Washington — É importante para o público, e fornece um nível de detalhamento dos aspectos práticos de se juntar a uma organização terrorista que não se viu antes no sistema judicial dos EUA. Essas coisas normalmente não vem a tona dessa forma".

Khweis conversou com outros recrutas, que contavam ter ouvido que seria impossível viver como muçulmano nos Estados Unidos, e que sírios haviam sido mortos por uma vaga de estacionamento no país.

— Eu disse a eles, 'Não, não é assim’ — contou em depoimento — Podem haver alguns incidentes, mas os muçulmanos podem rezar e há até policiais que frequentam mesquitas.

Os recrutas foram visitados por um grupo chamado Jaysh al-Khalifa, pedindo voluntários para cometer ataques terroristas em seus países de origem. na ocasião foram informados de que os voluntários devem ser solteiros, não feridos, dispostos a treinar por seis a 12 meses em locais remotos e capazes de viver uma vida isolada no seu regresso à casa.

Khweis disse que conheceu um americano que fazia parte do Jaysh al-Khalifa, mas foi enviado de volta por causa de problemas renais. Mais tarde, afirmou que teria identificado uma fotografia desse americano para o FBI, junto com os três franceses em seu táxi. No entanto, ele também disse em depoimento que foi colocado com pessoas que não falavam inglês, primeiro em Mosul para instrução religiosa e depois na cidade iraquiana do norte de Tal Afar. Ao longo do caminho, teria conhecido jihadistas submetidos a treinamento de armas e atiradores. Mas, afirmou ter participado pouco, por sofrer de uma doença no estômago.

Segundo seu depoimento, os outros recrutas suspeitavam dele.

— Perguntavam por que não fui enviado para ficar com outros falantes de inglês — declarou Khweis.

Quando perguntou a um membro da liderança, sobre o por quê de sua situação, recebeu a resposta de que “ainda estava sob investigação”. Em todo o caso, Khweis sustentou em sua versão que pretendia ser apenas um observador, não um membro do grupo terrorista.

Disse aos jurados que estava copiando jornalistas, como o repórter da Vice News, Medyan Dairieh, que passou três semanas convivendo com o Estado Islâmico. Para ele, os meios de comunicação mostravam apenas as atrocidades do grupo, enquanto seus apoiadores na internet propagavam a possibilidade de uma vida pacífica no califado.

Relatou ainda em seu depoimento que, ainda adolescente, conheceu a Síria com sua família. Teria ficado apaixonado pelo país, e estava atordoado pela atual guerra civil. Foi quando se perguntou perguntou se o governo atual não era mais violento do que o Estado Islâmico.

— Vindo de uma origem muçulmana, pensei que poderia me misturar facilmente. Queria entrar e sair muito rapidamente. Eu precisava ver aquilo — afirmou.

Os promotores dizem que Khweis se entregou, voluntariamente, ao Estado islâmico e agora tenta esconder sua afiliação em face de três acusações de crime.

— Você escolheu fazer o que muitas pessoas não fariam — disse o promotor Raj Parekh — Ninguém te obrigou a entrar naquele táxi.

Sob o interrogatório, Khweis relutou em admitir suas tentativas de ocultar seus movimentos ou de que tenha sido útil para os membros do Estado Islâmico. Ele afirmou que ele exagerou suas ações quando falou com agentes do FBI no Iraque. Khweis disse que estava "desesperado" para sair, mas não tinha liberdade de movimento até Tal Afar, quando depois de várias tentativas de fuga, ele tomou um táxi para o Norte e depois caminhou pelo resto da noite para o que ele acreditava ser o território curdo.

Quando ouviu vozes e sentiu cheiro de fumaça, disse que sabia que não estava mais no território do Estado Islâmico, onde os cigarros são proibidos. Ele se rendeu às forças curdas locais em 14 de março do ano passado.

— Olá, você pode por favor me ajudar — lembrou ter perguntado — Eu sou um americano, quero voltar para casa.

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?