WASHINGTON - As polêmicas declarações de Donald Trump, além de chocar parte da população, cada vez mais preocupam especialistas. As indas e vindas do presidente — que na noite de terça-feira fez um discurso raivoso, mas na quarta-feira pediu união e disse que era hora de “curar as feridas” — mostram, segundo muitos, uma instabilidade que não combina com a Casa Branca. E o cenário, ruim desde os conflitos raciais da semana retrasada em Charlottesville, na Virgínia, piora no Partido Republicano, que pode não conseguir aprovar o Orçamento do país, apesar de ter maioria no Congresso.
Em discurso um dia antes no Arizona, Trump acusou a imprensa americana de ser dominada por “pessoas doentes” que “não gostam do país” e atacou colegas da legenda. Mas, poucas horas depois, no estado de Nevada, tentou adotar um tom mais equilibrado:
— Não há divisão que seja tão profunda que não possamos curar. E não há inimigo que seja tão forte que não possamos vencer. Juntos, nós não falhamos. Nós não falharemos. Nós faremos os EUA grandes de novo, maiores do que jamais foram, eu prometo — disse Trump, que na véspera acusara a mídia de distorcer suas declarações sobre o incidente de Charlottesville, embora ele mesmo tenha omitido parte delas, como quando disse que “havia pessoas boas” dos dois lados do conflito que deixou uma mulher morta após um supremacista branco jogar o carro contra manifestantes antirracistas que já se dispersavam.
As reações foram imediatas. A entrevista que James Clapper, ex-diretor nacional de Inteligência, deu ao vivo na CNN repercutiu em todo o país. Ele chegou a dizer que não sabe até quando os EUA terão que suportar “este pesadelo”:
— Trabalhei para vários presidentes, de John Kennedy a (Barack) Obama, e nunca ouvi e assisti algo assim. Foi o mais perturbador — afirmou. — Me preocupo, francamente, com o acesso (do presidente) aos códigos nucleares.
Clapper disse não saber se Trump está apto a ser presidente e questionou se, com tais discursos raivosos, não está “procurando uma saída”.
Na mesma linha, Richard Painter, ex-procurador de Ética de governos republicanos, por sua vez, foi direto:
— Este homem não deve controlar nossas armas nucleares.
Evan McMullin, ex-agente da CIA e candidato independente à eleição americana, após ter pertencido ao Partido Republicano, criticou Trump:
— A distorção intencional da História pelo presidente, combinando nossos Fundadores com confederados, é um estratagema autoritário comum — disse, em referência à defesa de Trump às estátuas de confederados (que lutaram para manter a escravidão no país), comparados pelo presidente ao ex-presidente Thomas Jefferson.
Uma pesquisa divulgada na tarde de quarta-feira pela Quinnipiac University apontou que 62% dos americanos acreditam que Trump está dividindo o país. Sua aprovação caiu a 35%, quatro pontos menor que na semana anterior. O percentual coincide com outros levantamentos que mostram Trump no piso de sua popularidade desde que assumiu a Casa Branca, há sete meses.
Estes novos discursos isolam ainda mais o presidente, que está sofrendo por, após ter condenado racistas, afirmar que “ambos os lados” são culpados pelos conflitos em Charlottesville. A imprensa americana noticiou na quarta-feira que ele não fala há semanas com o líder dos republicanos no Senado, Mitch McConnell. A Casa Branca teve de emitir uma nota, dizendo que ambos atuam em conjunto e compartilham prioridades. Mas o que fez as bolsas americanas caírem quarta-feira foi a informação de que a votação do Orçamento americano, que precisa ser concluído em setembro, pode atrasar devido ao impasse sobre os recursos para a construção do muro na fronteira do México — um desejo de Trump rejeitado pelos republicanos.
E, numa rara declaração ´do gênero, a ONU pediu aos EUA uma “condenação clara” do racismo. O Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial da organização alegou que foi “perturbado pelo fracasso no mais alto nível político” do governo americano para rejeitar manifestações racistas. Esse fracasso poderia “alimentar a proliferação de discursos e incidentes racistas” no país, segundo o comunicado.

