LONDRES — Famosa por sua determinação em manter a vida pessoal longe do noticiário, a primeira-ministra Theresa May teve que ceder durante a atual campanha para renovação do Parlamento, uma eleição antecipada convocada por ela. Para suavizar a imagem de uma mulher enigmática, distante do público, participou de um dos talk shows mais populares da TV britânica ao lado do marido, o executivo Philip May, e falou sobre coisas como amor à primeira vista e divisão de afazeres domésticos. Nos últimos dias, teve que voltar ao tom sério e sombrio de uma líder que enfrenta um dos maiores desafios da história do Reino Unido: conduzir o processo de separação da União Europeia em meio a ameaças do terrorismo, que já atacou o país duas vezes nos últimos dois meses. Seu Partido Conservador começou a campanha com 23 pontos de vantagem, mas a oposição do Partido Trabalhista vem ganhando força. Enquanto Manchester chora as vidas perdidas no atentado do dia 22 e tropas militares vigiam as ruas de Londres, May precisará provar até a votação do dia 8 que é a pessoa certa no lugar certo.
O ataque durante o concerto da cantora pop Ariana Grande — um alvo escolhido pelo terrorista suicida para aterrorizar e matar menores e seus pais — uniu os britânicos, que mantiveram suas rotinas, apesar de o alerta antiterror ter chegado ao nível máximo. Mas a subida acelerada dos trabalhistas, que segundo as últimas pesquisas estão apenas cinco pontos abaixo dos conservadores, indica que a visão dos eleitores em relação a May está mudando. A primeira-ministra surpreendeu o país em abril ao dissolver o Parlamento e convocar novas eleições, acreditando que aumentaria sua maioria e facilitaria as negociações sobre o Brexit. A vitória, dada como certa há uma semana, pode não ser fácil.
Críticas em relação a falhas na segurança não são o único problema da premier. Antes do atentado, a divulgação do plano de governo conservador já vinha causando controvérsia. O ponto mais polêmico do manifesto divulgado por May foi apelidado pela oposição de “imposto da demência”. Ela propôs mudanças na maneira como serviços sociais para idosos são pagos pelo governo, o que aumentaria os custos para quem recebe assistência social por um tempo prolongado. Hoje existe um limite, acima do qual o Estado assume os gastos. A proposta de acabar com esse limite revoltou eleitores num país onde o envelhecimento populacional é acelerado. A premier teve que voltar atrás, mas sem dar detalhes sobre como pretende conter o rombo da previdência. O recuo causou confusão com aliados, que não esconderam a insatisfação com a líder do partido.
May, de 60 anos, nunca foi considerada uma figura carismática, mas ganhou a confiança dos conservadores por sua seriedade e por não ter medo de brigar por suas ideias. Antes do plebiscito que aprovou a saída britânica da União Europeia, ela era uma defensora da UE. Com a derrocada de David Cameron e sua ascensão ao poder sem passar pelo voto popular, transformou-se no rosto do Brexit. A queda de braço com Bruxelas ganhou contornos de guerra (o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, chamou May de “delirante”), e o Reino Unido endureceu sua posição sobre o divórcio. A premier prefere um rompimento total com o mercado único do que um acordo que não interessa aos britânicos.
— Theresa May vem tentando criar uma imagem para si própria desde que se tornou primeira-ministra. O Brexit lhe deu a oportunidade de se definir como uma líder nacional forte, que enfrenta a UE e questiona suas demandas, e ela acredita que isso a favorecerá nas eleições — diz Robert Ladrech, especialista em política europeia da Universidade de Keele, para quem May se aliou à ala mais conservadora de seu partido, embora continue confiando apenas num grupo reduzido de conselheiros.
A campanha foi interrompida depois do atentado, mas a disputa recomeçou de forma agressiva, com o principal adversário de May, o trabalhista Jeremy Corbyn, culpando a política externa dos conservadores e intervenções em países como Iraque, Síria e Líbia, pela explosão do extremismo islâmico. A reação de May foi rápida: antes de deixar a cúpula do G7 na Sicília, acusou Corbyn de inventar desculpas para o terror.
Para a analista Susi Dennison, do Conselho Europeu de Relações Internacionais, o atentado em Manchester não deve afetar a decisão dos eleitores no dia 8 e levará a primeira-ministra a reforçar a promessa de um governo “forte e estável”, em oposição à falta de experiência de Corbyn. Mas se conseguir a reeleição, May não poderá se isolar totalmente da UE na área de segurança ou aumentará a vulnerabilidade britânica.
— Ela precisará planejar uma parceria pós-Brexit para a segurança nacional. Acredito que nesse setor seu interesse será manter o mesmo nível de cooperação que já existe com os países membros. A questão é se a UE está disposta, mas a Alemanha e a França já indicaram que deve haver acordo — acredita Susi.

